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FREQUÊNCIA DISSIDENTE #01

Abhinanda – Senseless (CD, 1994)

Mídia / Origem: CD Original (Edição DFR#4) / Acervo Pessoal (Adquirido via Ritmo & Poesia Discos e Livros)

Cena: Umeå Hardcore (Umeå HC) / Desperate Fight Records

A Materialidade da Mídia e a Memória do Acervo

Colocar para rodar o CD original de Senseless (1994), lançado pelo selo sueco Desperate Fight Records (catalogado sob o número DFR#4), é resgatar um elo físico e afetivo com o circuito de distribuição independente dos anos 1990. Este exemplar, adquirido diretamente com o militante e produtor cultural Fernando “Ruivo” Lopes — figura fundamental do underground à frente da Ritmo & Poesia Discos e Livros —, carrega a história da circulação de ideias radicais entre o Norte Global e o Brasil. Em uma época anterior à facilidade dos arquivos digitais, a chegada de um CD importado de Umeå funcionava como um vetor de formação política, estética e crítica.

A Gênese em Umeå e o Ecossistema da Desperate Fight Records

Compreender o Abhinanda exige reconstituir a cena da cidade de Umeå, no norte da Suécia. Em meio ao isolamento geográfico e sob o impacto da austeridade econômica europeia e do avanço global do modelo neoliberal nos anos 1990 — cujas dinâmicas são analisadas sob perspectiva crítica por Pedro Paulo Zahluth Bastos (2015) —, a juventude local articulou o movimento Umeå Hardcore. Formado em 1992 por José Saxlund (vocal), Adam Nilsson (guitarra), Mattias Abrahamsson (baixo) e Jonas Lyxzén (bateria), o Abhinanda esteve no centro dessa engrenagem.

Em 1993, Saxlund fundou, ao lado de Dennis Lyxzén (vocalista do Refused), o selo autogestionário Desperate Fight Records (DFR) (SAXLUND, 2010; 2024). A DFR não era apenas uma gravadora independente; era a infraestrutura ideológica de uma cena baseada no Do It Yourself (DIY). Havia uma constante simbiose entre as bandas locais: no próprio CD Senseless, as guitarras foram gravadas por Kristofer Steen, que pouco tempo depois migrou definitivamente para o Refused para compor as bases do histórico The Shape of Punk to Come (1998).

A Apropriação do Straight Edge e a Crítica Anticapitalista

Diferente do movimento Straight Edge (SXE) surgido nos Estados Unidos nos anos 1980 — que frequentemente resvalava em um culto individualista à disciplina corporal, ao moralismo ou à agressividade masculina —, a cena de Umeå operou uma reinterpretação politizada da abstenção de álcool, tabaco e drogas (KUHN, 2010).

Para o Abhinanda e os coletivos que orbitavam a Desperate Fight Records, a sobriedade era encarada como uma postura política: uma recusa consciente à anestesia social promovida pelo mercado de bebidas, tabaco e drogas recreativas, que lucram com a passividade e a alienação da juventude. A sobriedade emergia como condição primária para a militância lúcida e para a sustentação do engajamento comunitário no underground.

A Contradição do Krishnacore: Espiritualidade vs. Libertação humana e Animal

O próprio nome “Abhinanda” foi extraído da letra da faixa-título do álbum Perfection of Desire (1990), da banda nova-iorquina Shelter, pioneira do movimento Krishnacore. Em sua fase inicial — compreendida entre a demo Darkness of Ignorance (1993) e o lançamento do CD Senseless (1994) —, o grupo sueco aproximou-se de conceitos da filosofia Vaishnava (Hare Krishna) como busca por pureza ética e crítica ao materialismo ocidental.

Contudo, uma análise crítica rigorosa revela as incoerências teóricas dessa fusão:

  1. A Questão do Veganismo: A doutrina Hare Krishna tradicional (ISKCON) é historicamente lacto-vegetariana. O leite e seus derivados são considerados sagrados e centrais nos rituais de oferenda (prasadam). O Abhinanda e a cena de Umeå, por outro lado, adotavam o veganismo estrito como pauta de libertação animal e combate ao agronegócio transnacional — uma exigência política que a teologia Krishna tradicional não sustenta.
  • 2. Devoção Individual vs. Ação Direta: A filosofia Vaishnava foca a libertação da alma (jiva) do ciclo de reencarnações por meio da devoção espiritual (bhakti), sem propor a reestruturação política da sociedade. O movimento de Umeå, imbuído de urgência social, exigia uma postura de confronto anticapitalista e combate às desigualdades que colidia com o tradicionalismo e a estrutura hierárquica da religião organizada.

Como o próprio Saxlund relata em retrospectiva (SAXLUND, 2010), o Abhinanda gradualmente abandonou o misticismo oriental a partir de seu segundo disco (Abhinanda, 1996), consolidando um discurso secular focado no Post-Hardcore e na crítica social. O CD Senseless permanece, assim, como o registro tátil do exato momento em que a busca por transcendência interior tentou coexistir com a militância política terrena.

Análise Sonora e Lírica do CD Senseless (1994)

Gravado no Tonteknik Recording em Umeå, Senseless captura a transição estética do hardcore europeu em meados dos anos 90. A sonoridade abandona a velocidade simples do Youth Crew para abraçar arranjos mais densos, com bases cavalgadas de guitarra, variações rítmicas e alternância entre passagens arpejadas e explosões vocais rasgadas.

Lista Completa de Faixas (DFR#4):

Senseless (02:33)

Inner Qualities (03:08)

Needle (01:52)

Fallen (02:36)

Competition In Hatred (02:09)

Love Story (02:28)

Drift Apart (01:48)

Dragon (03:46)

My Source (01:57)

Serenade (02:01)

Destaques de Faixas e Letras:

“Senseless” (Faixa 1): A música de abertura estabelece o tom do álbum ao confrontar o consumo desenfreado e a apatia diante da destruição do planeta. A letra explicita o colapso ético provocado pela lógica de mercado:

“Senseless actions, senseless lives / We build our world on lies / How can we live when we destroy everything around us?”

(“Ações sem sentido, vidas sem sentido / Construímos nosso mundo sobre mentiras / Como podemos viver quando destruímos tudo ao nosso redor?”)

A interpretação vocal de Saxlund transforma a angústia ecológica e a crítica ao desperdício em um grito de urgência que recusa a resignação.

“Inner Qualities” (Faixa 2): Esta faixa condensa a tensão central do disco entre a busca por integridade pessoal e a rejeição aos padrões de validação impostos pela sociedade do espetáculo:

“Don’t judge me by the cover / Look deep inside / It’s the inner qualities that survive.”

(“Não me julgue pela capa / Olhe bem no fundo / São as qualidades interiores que sobrevivem.”)

Sob guitarras arrastadas e riffs bem marcados gravados por Kristofer Steen, a faixa critica a futilidade da aparência e a coisificação das relações humanas, propondo a construção de valores que não possam ser comprados ou comercializados.

“Needle” (Faixa 3): Apontando diretamente para a tática do Straight Edge, a letra de “Needle” aborda a autodestruição causada pelas drogas e o escapismo quimicamente induzido:

“A needle in your arm won’t set you free / It’s just another chain of slavery.”

(“Uma agulha no seu braço não vai te libertar / É apenas mais uma corrente de escravidão.”)

Em vez de soar como pregação moral, a faixa estrutura o vício como um mecanismo de controle social que neutraliza o potencial rebelde da juventude, reafirmando a sobriedade como uma postura de lucidez e combate.

Considerações Finais

O CD Senseless (DFR#4) preservado no acervo pessoal não é apenas um documento da música subterrânea sueca; é o testemunho das conexões internacionais que moldaram a escuta crítica no Brasil dos anos 1990. Ao ser intermediado pela Ritmo & Poesia Discos e Livros de Fernando “Ruivo” Lopes, o disco tornou-se parte da formação de um sujeito que recusa os consensos mercadológicos. Revisitá-lo na coluna Frequência Dissidente é reconhecer as contradições do passado para manter afiada a crítica ao presente.

ONDE OUVIR O ÁLBUM COMPLETO

Para além do circuito das plataformas corporativas de streaming, você pode escutar o álbum Senseless (1994) na íntegra diretamente no Bandcamp:

🎧 Stream oficial do disco: Abhinanda – Senseless (Stick To The Core Records Bandcamp)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABHINANDA. Senseless. Umeå: Desperate Fight Records, p1994. 1 CD (ca. 32 min.), estéreo. Catalogação: DFR#4. Encarte e ficha técnica do CD físico.

ABHINANDA. Senseless (Álbum Completo). Stick To The Core Records / Bandcamp, 1994. 1 áudio digital (32 min.). Disponível em: https://sticktothecore.bandcamp.com/album/senseless. Acesso em: 9 ago. 2026.

DISCOGS. Abhinanda: Profile and official discography. 2026. Disponível em: https://www.discogs.com/artist/260021-Abhinanda. Acesso em: 9 ago. 2026.

KUHN, Gabriel (ed.). Una vida sobria para la revolución: hardcore punk, straight edge y políticas radicales. Tradução: Vari@s autor@s. [S.l.]: Imperdible Editorial, [s.d.]. 396 p. ISBN 978-84-127768-3-6.

SAXLUND, José. José Saxlund (Abhinanda / Desperate Fight Records). Entrevista concedida ao LXO Zine #1. LXO Crew Blog, 21 maio 2010. Disponível em: https://lxocrew.wordpress.com/2010/05/21/jose-saxlund-lxo-zine-1/. Acesso em: 9 ago. 2026.

SAXLUND, José. Jose Saxlund from Abhinanda and Desperate Fight Records. Entrevista concedida a Ray Harkins. 100 Words Or Less: The Podcast, ep. 643, 31 jan. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oYashi5kuq8. Acesso em: 9 ago. 2026.

VORT’N VIS IN THE 90S. Abhinanda at Vort’n Vis Festival: Live Reports, Interviews and Archives. 10 ago. 2018. Blog de Arquivo do Punk Belga. Disponível em: https://90svortnvis.wordpress.com/tag/abhinanda/. Acesso em: 9 ago. 2026.

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Frequência Dissidente: Um Manifesto

A Mídia Física como Trincheira, a Escuta sob Crivo Radical e Crítico

Em um tempo em que a cultura é reduzida a mero insumo para algoritmos e as escolhas estéticas são pasteurizadas pela conveniência do consumo instantâneo, sintonizar na Frequência Dissidente é uma escolha consciente pelo atrito.

Esta coluna nasce com um propósito claro: exercitar a crítica cultural sob um crivo radical e crítico, tomando como ponto de partida a totalidade da música que me formou. Aqui, nenhum gênero está isolado por barreiras puristas. Da urgência do underground aos clássicos da música popular, da tradição erudita ao rap e ao pop de massa, a produção sonora é encarada não como entretenimento estéril ou fetiche mercadológico, mas como documento político, vetor estético e território de disputa — uma disputa que atravessa classe, raça, gênero, sexualidade, ideologia e a própria busca por autonomia.

O Acervo Pessoal e a Memória Tátil

Cada ensaio publicado nesta coluna parte de uma premissa física e insubstituível: a escuta ancorada na mídia física e no acervo pessoal.

Colocar para rodar um CD, um disco de vinil ou uma fita cassete acumulados ao longo de uma vida de formação não é um ato de nostalgia passiva. É a afirmação da memória tátil e a recusa da imaterialidade volátil das plataformas corporativas. Olhar a capa, folhear o encarte, ler a ficha técnica e resgatar a história de como aquele objeto chegou às minhas mãos é reatar o contato com as trocas afetuosas e os contextos que moldaram a nossa percepção de mundo.

Os Pilares da Coluna

Amplitude Musical: Todos os sons que formam esse acervo têm espaço. O underground e a música de massa dividem a mesma bancada de escuta, encarados com a mesma atenção.

Crivo Radical e Crítico: O foco está nas tensões entre a criação e a indústria, nas contradições das letras e dos arranjos e no modo como o som responde ao seu tempo.

Pesquisa Independente: A escuta do disco se conecta a uma busca livre por contexto e história, sem a necessidade de jargões travados ou carimbos acadêmicos.

Sintonizando o Dissenso

A Frequência Dissidente é um espaço de escuta atenta e recusa consciente: recusa aos consensos mercadológicos, recusa à anestesia do consumo rápido e recusa ao esquecimento das memórias e resistências que nos constituem. Sintonizar aqui é recusar a anestesia do algoritmo. O espaço está aberto para quem prefere a escuta atenta e a crítica sem concessões.

Rodem a mídia, leiam o encarte e bem-vindos à coluna.