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FREQUÊNCIA DISSIDENTE #01

Abhinanda – Senseless (CD, 1994)

Mídia / Origem: CD Original (Edição DFR#4) / Acervo Pessoal (Adquirido via Ritmo & Poesia Discos e Livros)

Cena: Umeå Hardcore (Umeå HC) / Desperate Fight Records

A Materialidade da Mídia e a Memória do Acervo

Colocar para rodar o CD original de Senseless (1994), lançado pelo selo sueco Desperate Fight Records (catalogado sob o número DFR#4), é resgatar um elo físico e afetivo com o circuito de distribuição independente dos anos 1990. Este exemplar, adquirido diretamente com o militante e produtor cultural Fernando “Ruivo” Lopes — figura fundamental do underground à frente da Ritmo & Poesia Discos e Livros —, carrega a história da circulação de ideias radicais entre o Norte Global e o Brasil. Em uma época anterior à facilidade dos arquivos digitais, a chegada de um CD importado de Umeå funcionava como um vetor de formação política, estética e crítica.

A Gênese em Umeå e o Entorno da Desperate Fight Records

Compreender o Abhinanda exige reconstituir a cena da cidade de Umeå, no norte da Suécia. Em meio ao isolamento geográfico e sob o impacto da austeridade econômica europeia e do avanço global do modelo neoliberal nos anos 1990, a juventude local articulou o movimento Umeå Hardcore. Formado em 1992 por José Saxlund (vocal), Adam Nilsson (guitarra), Mattias Abrahamsson (baixo) e Jonas Lyxzén (bateria), o Abhinanda esteve no centro dessa engrenagem.

Em 1993, Saxlund fundou, ao lado de Dennis Lyxzén (vocalista do Refused), o selo autogestionário Desperate Fight Records (DFR) (SAXLUND, 2010; 2024). A DFR não era apenas uma gravadora independente; era a infraestrutura ideológica de uma cena baseada no Do It Yourself (DIY). Havia uma constante simbiose entre as bandas locais: no próprio CD Senseless, as guitarras foram gravadas por Kristofer Steen, que pouco tempo depois migrou definitivamente para o Refused para compor as bases do histórico The Shape of Punk to Come (1998).

A Apropriação do Straight Edge e a Crítica Anticapitalista

Diferente da cena Straight Edge (SXE) que se consolidou nos Estados Unidos ao longo dos anos 1990 — hegemonicamente marcada pelo tom bélico de bandas como Earth Crisis, pelo culto individualista à disciplina corporal, pelo moralismo e pela postura masculinista do estilo tough guy —, a cena de Umeå operou uma reinterpretação mais politizada da abstenção de álcool, tabaco e drogas. Contudo, se a juventude sueca recusou a estética hiperagressiva e belicosa do New School norte-americano, acabou importando a própria vertente do Krishnacore, gestada nesse mesmo circuito pós-Youth of Today por bandas como Shelter e 108. Essa apropriação evidencia o alcance do soft power e da hegemonia cultural norte-americana: mesmo na tentativa de formular uma ética radical e autônoma na periferia europeia, o vocabulário estético, espiritual e ideológico utilizado por Umeå chegou mediado e filtrado pelas redes de distribuição e pela produção contracultural dos Estados Unidos.

Para o Abhinanda e os coletivos que orbitavam a Desperate Fight Records, a sobriedade era encarada como uma postura política: uma recusa consciente à anestesia social promovida pelo mercado de bebidas, tabaco e drogas recreativas, que lucram com a passividade e a alienação da juventude. A sobriedade emergia como condição primária para a militância lúcida e para a sustentação do engajamento comunitário no underground.

A Contradição do Krishnacore: Espiritualidade vs. Libertação humana e Animal

O próprio nome “Abhinanda” foi extraído da letra da faixa-título do álbum Perfection of Desire (1990), da banda nova-iorquina Shelter, pioneira do movimento Krishnacore. Em sua fase inicial — compreendida entre a demo Darkness of Ignorance (1993) e o lançamento do CD Senseless (1994) —, o grupo sueco aproximou-se de conceitos da filosofia Vaishnava (Hare Krishna) como busca por pureza ética e crítica ao materialismo ocidental.

Contudo, uma análise crítica rigorosa revela as incoerências teóricas dessa fusão:

  1. A Questão do Veganismo: A doutrina Hare Krishna tradicional (ISKCON) é historicamente lacto-vegetariana. O leite e seus derivados são considerados sagrados e centrais nos rituais de oferenda (prasadam). O Abhinanda e a cena de Umeå, por outro lado, adotavam o veganismo estrito como pauta de libertação animal e combate ao agronegócio transnacional — uma exigência política que a teologia Krishna tradicional não sustenta.
  • 2. Devoção Individual vs. Ação Direta: A filosofia Vaishnava foca a libertação da alma (jiva) do ciclo de reencarnações por meio da devoção espiritual (bhakti), sem propor a reestruturação política da sociedade. O movimento de Umeå, imbuído de urgência social, exigia uma postura de confronto anticapitalista e combate às desigualdades que colidia com o tradicionalismo e a estrutura hierárquica da religião organizada.

Como o próprio Saxlund relata em retrospectiva (SAXLUND, 2010), o Abhinanda gradualmente abandonou o misticismo oriental a partir de seu segundo disco (Abhinanda, 1996), consolidando um discurso secular focado no Post-Hardcore e na crítica social. O CD Senseless permanece, assim, como o registro tátil do exato momento em que a busca por transcendência interior tentou coexistir com a militância política terrena.

Análise Sonora e Lírica: Religiosidade vs. Atitude Política nas Letras

Gravado no Tonteknik Recording em Umeå, Senseless captura a transição estética do hardcore europeu em meados dos anos 90. A sonoridade abandona a velocidade simples e reta do Youth Crew para abraçar arranjos mais densos, com bases cavalgadas de guitarra, variações rítmicas e a alternância entre passagens arpejadas e explosões vocais rasgadas. As guitarras gravadas por Kristofer Steen (que logo em seguida assumiria o Refused) trazem um peso metálico e uma precisão que viriam a caracterizar a sonoridade do New School europeu.

Contudo, é no crivo textual e na tensão entre o arcabouço religioso e a práxis política secular que a contradição de Senseless se torna mais evidente. O álbum expõe a transição problemática de uma juventude radical que tenta conciliar jargões morais da filosofia oriental com a urgência material da luta anticapitalista.

Lista Completa de Faixas (Edição DFR#4, 1994):

Senseless (02:33)

Inner Qualities (03:08)

Needle (01:52)

Fallen (02:36)

Competition In Hatred (02:09)

Love Story? (02:28)

Drift Apart (01:48)

Dragon (03:46)

My Source (01:57)

Serenade (02:01)

Análise Crítica dos Textos do Encarte:
“Senseless” (Faixa 1): O Diagnóstico da Alienação sob a Lógica da Marionete

“This is my body but I got no control / Cause they keep pulling my strings / I am their puppet and I don’t care to say no / They’re pulling me into the dark (…) So senseless, to follow your senses / They keep driving me around / They whip me back and keep the carrot / Before my eyes. They’re driving me insane.”

(“Este é o meu corpo, mas não tenho controle / Porque eles continuam puxando minhas cordas / Sou o fantoche deles e não me importo em dizer não / Eles estão me puxando para a escuridão (…) Tão sem sentido, seguir seus sentidos / Eles continuam me pilotando / Eles me chicoteiam de volta e mantêm a cenoura / Diante dos meus olhos. Eles estão me enlouquecendo.”)

Análise Crítica: Na faixa de abertura, a recusa aos “sentidos” (“senseless, to follow your senses”) ecoa o conceito Hindu de indriya-nigraha (o controle dos sentidos e do desejo material). Todavia, ao cruzar esse ideal ascético com a metáfora política da marionete e do condicionamento (“the whip and the carrot”), a letra oscila entre o diagnóstico material da alienação da classe trabalhadora e uma postura de ressentimento existencial. A religiosidade oferece a metáfora da dominação corporificada, mas falha em apontar o agente político da libertação, situando o conflito na esfera da batalha individual da mente contra a opressão externa.

“Needle” (Faixa 3): O Apelo Ascético versus a Materialidade da Dependência

“needle- i got the needle / needle- i need the needle / needle- i broke the needle / just one more…no more!”

(“agulha- eu peguei a agulha / agulha- eu preciso da agulha / agulha- eu quebrei a agulha / só mais uma… chega!”)

Análise Crítica: Em sua concisão telegráfica, “Needle” encarna a visão Straight Edge do rompimento através da força de vontade pura (“i broke the needle”). Sob a lente religiosa, o vício é enxergado como ilusão (maya) e degradação moral do vaso espiritual. Contudo, do ponto de vista da crítica política materialista, a letra reflete a limitação idealista da cena: a dependência química e a anestesia social são abordadas como escolhas morais resolvidas por um ato drástico de volição individual, sem considerar os determinantes socioeconômicos da miséria ou as estruturas produtivas que lucram com a drogadição. O desespero da faixa revela a urgência punk, mas a solução apontada permanece presa ao voluntarismo individual.

“Drift Apart” (Faixa 7): A Colisão entre a Mística Vaishnava e a Práxis da Igualdade

“The light of compassion is now a part of me / I left everything of this loneliness / Set adrift from this senseless age (…) Sacrifice- in the name of equality / Sacrifice- in the name of compassion / The flower of equality has bloomed again”

(“A luz da compaixão agora é parte de mim / Deixei tudo desta solidão / À deriva desta era sem sentido (…) Sacrifício- em nome da igualdade / Sacrifício- em nome da compaixão / A flor da igualdade floresceu novamente”)

Análise Crítica: É na faixa 7 que a contradição entre a religiosidade e a atitude política atinge o seu ápice. A primeira parte do texto busca a linguagem tradicional da devoção (bhakti): a iluminação interior (“light of compassion”) e o abandono da ilusão da era secular (“senseless age”). No entanto, a eclosão do refrão subverte o Quietismo oriental ao articular o sacrifício não em nome de uma divindade ou da libertação kármica individual, mas “em nome da igualdade” (“in the name of equality”). O Abhinanda força a teologia Krishna — que historicamente aceita divisões de casta/ordem social (varna) — a servir de combustível para um programa de igualitarismo radical e libertação animal. É o registro claro da política punk instrumentalizando a linguagem da mística para tentar justificar a ação direta no mundo terreno. Isso não significa que conseguiram.

Considerações Finais

O CD Senseless (DFR#4) preservado no acervo pessoal não é apenas um documento da música subterrânea sueca; é o testemunho das conexões internacionais que moldaram a escuta crítica no Brasil dos anos 1990. Ao ser intermediado pela Ritmo & Poesia Discos e Livros de Fernando “Ruivo” Lopes, o disco tornou-se parte da formação de um sujeito que recusa os consensos mercadológicos. Revisitá-lo na coluna Frequência Dissidente é reconhecer as contradições do passado para manter afiada a crítica ao presente.

ONDE OUVIR O ÁLBUM COMPLETO

Para além do circuito das plataformas corporativas de streaming, você pode escutar o álbum Senseless (1994) na íntegra diretamente no Bandcamp:

🎧 Stream oficial do disco: Abhinanda – Senseless (Stick To The Core Records Bandcamp)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABHINANDA. Senseless. Umeå: Desperate Fight Records, p1994. 1 CD (ca. 32 min.), estéreo. Catalogação: DFR#4. Encarte e ficha técnica do CD físico.

ABHINANDA. Senseless (Álbum Completo). Stick To The Core Records / Bandcamp, 1994. 1 áudio digital (32 min.). Disponível em: https://sticktothecore.bandcamp.com/album/senseless. Acesso em: 9 ago. 2026.

DISCOGS. Abhinanda: Profile and official discography. 2026. Disponível em: https://www.discogs.com/artist/260021-Abhinanda. Acesso em: 9 ago. 2026.

KUHN, Gabriel (ed.). Una vida sobria para la revolución: hardcore punk, straight edge y políticas radicales. Tradução: Vari@s autor@s. [S.l.]: Imperdible Editorial, [s.d.]. 396 p. ISBN 978-84-127768-3-6.

SAXLUND, José. José Saxlund (Abhinanda / Desperate Fight Records). Entrevista concedida ao LXO Zine #1. LXO Crew Blog, 21 maio 2010. Disponível em: https://lxocrew.wordpress.com/2010/05/21/jose-saxlund-lxo-zine-1/. Acesso em: 9 ago. 2026.

SAXLUND, José. Jose Saxlund from Abhinanda and Desperate Fight Records. Entrevista concedida a Ray Harkins. 100 Words Or Less: The Podcast, ep. 643, 31 jan. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oYashi5kuq8. Acesso em: 9 ago. 2026.

VORT’N VIS IN THE 90S. Abhinanda at Vort’n Vis Festival: Live Reports, Interviews and Archives. 10 ago. 2018. Blog de Arquivo do Punk Belga. Disponível em: https://90svortnvis.wordpress.com/tag/abhinanda/. Acesso em: 9 ago. 2026.

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Frequência Dissidente: Um Manifesto

A Mídia Física como Trincheira, a Escuta sob Crivo Radical e Crítico

Em um tempo em que a cultura é reduzida a mero insumo para algoritmos e as escolhas estéticas são pasteurizadas pela conveniência do consumo instantâneo, sintonizar na Frequência Dissidente é uma escolha consciente pelo atrito.

Esta coluna nasce com um propósito claro: exercitar a crítica cultural sob um crivo radical e crítico, tomando como ponto de partida a totalidade da música que me formou. Aqui, nenhum gênero está isolado por barreiras puristas. Da urgência do underground aos clássicos da música popular, da tradição erudita ao rap e ao pop de massa, a produção sonora é encarada não como entretenimento estéril ou fetiche mercadológico, mas como documento político, vetor estético e território de disputa — uma disputa que atravessa classe, raça, gênero, sexualidade, ideologia e a própria busca por autonomia.

O Acervo Pessoal e a Memória Tátil

Cada ensaio publicado nesta coluna parte de uma premissa física e insubstituível: a escuta ancorada na mídia física e no acervo pessoal.

Colocar para rodar um CD, um disco de vinil ou uma fita cassete acumulados ao longo de uma vida de formação não é um ato de nostalgia passiva. É a afirmação da memória tátil e a recusa da imaterialidade volátil das plataformas corporativas. Olhar a capa, folhear o encarte, ler a ficha técnica e resgatar a história de como aquele objeto chegou às minhas mãos é reatar o contato com as trocas afetuosas e os contextos que moldaram a nossa percepção de mundo.

Os Pilares da Coluna

Amplitude Musical: Todos os sons que formam esse acervo têm espaço. O underground e a música de massa dividem a mesma bancada de escuta, encarados com a mesma atenção.

Crivo Radical e Crítico: O foco está nas tensões entre a criação e a indústria, nas contradições das letras e dos arranjos e no modo como o som responde ao seu tempo.

Pesquisa Independente: A escuta do disco se conecta a uma busca livre por contexto e história, sem a necessidade de jargões travados ou carimbos acadêmicos.

Sintonizando o Dissenso

A Frequência Dissidente é um espaço de escuta atenta e recusa consciente: recusa aos consensos mercadológicos, recusa à anestesia do consumo rápido e recusa ao esquecimento das memórias e resistências que nos constituem. Sintonizar aqui é recusar a anestesia do algoritmo. O espaço está aberto para quem prefere a escuta atenta e a crítica sem concessões.

Rodem a mídia, leiam o encarte e bem-vindos à coluna.

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De las paradojas culturales: cultura, agencia, identidad, representatividad y supervivencia de los sujetos periféricos en la “Era de la Periferia”

Introducción1

Entre los años 2016 y 2024, acompañé hechos relacionados con diferentes actores de la producción cultural de las periferias, incluyendo acontecimientos que mis interlocutores privilegiados en aquel momento experimentaron. Los relacioné con mi trayectoria de investigación —tres iniciaciones científicas (2016–2018), una tesina de grado (2019), una maestría (2020–2024), que hoy desembocan en un doctorado en curso— y con las preguntas que se profundizaron con el tiempo, especialmente ante los reordenamientos, contrastes y nuevos rumbos del llamado proyecto pedagógico, estético y político (NASCIMENTO, 2009) que emergió de las producciones culturales de las periferias de São Paulo. Los casos acompañados llamaron la atención por exponer tensiones profundas: disputas en torno a los financiamientos, fracturas internas antes invisibilizadas, heterogeneidad de intereses, discursos y modos de actuación, además del creciente distanciamiento entre la multiplicidad concreta de los agentes y la idea de una supuesta unidad periférica —unidad esta, cada vez más capturada por el imaginario social mediante la popularización del adjetivo “periferia” como marca cultural, intelectual y comercial. Un fenómeno que Reyes (2012), con precisión crítica, describió como la “era de la periferia”2

En este artículo, reflexiono sobre tales cuestiones a la luz de mi tesis de maestría (SANTOS, 2024), articulándolas con los testimonios recogidos a lo largo de estos años y con las formulaciones desarrolladas en un texto anterior (SANTOS, 2022), en el cual discutí la relación entre la producción cultural periférica y aquello que muchos llaman “sistema”. Lo que me interesa, más que recomponer cronologías, es explorar el modo en que estos acontecimientos —aparentemente dispersos— iluminan disputas sobre cultura, agencia, identidad, representatividad y supervivencia en el contexto de la “Era de la Perifa” –nomenclatura que tomo prestada de Reyes (2012). Para situar el debate, divido el artículo en cinco partes: primero, presento cinco situaciones vividas en el cotidiano de la producción cultural de las periferias; a continuación, desarrollo una discusión sobre paradojas, ambigüedades, antagonismos y disputas simbólicas en el hacer cultural de las periferias, donde pongo el término cultura bajo sospecha, realizando una lectura crítica de la misma; en la secuencia, discuto la relación entre la política cultural de los gobiernos del Partido de los Trabajadores, las periferias y el neoliberalismo; en la cuarta parte realizo algunos señalamientos sobre identidad, representación, agencia, estructura y supervivencia en el contexto de las periferias; y finalmente concluyo con una síntesis de los principales temas discutidos en el texto. 

Pero antes de cualquier delimitación formal, es preciso reconocer que ciertas experiencias preceden y exceden el campo. Hay trayectorias que no elegimos enteramente, pero que nos atraviesan de tal modo que terminan por asediar —e iluminar— nuestras preguntas de investigación. No relato aquí un origen para legitimarlo como método; relato apenas la incomodidad de ver, a lo largo de la formación, que ciertas experiencias insisten en retornar como espectros teóricos. Crecí en el Grajaú –extremo sur de São Paulo–, en el pliegue entre la precariedad y el deseo: provengo de una familia nordestina e interracial que, con esfuerzo silencioso, mantenia encendida la fe en la escuela; una circulación enrarecida por la cultura, hasta que mi hermano abrió grietas por donde entraron música, política, literatura. Después vinieron el punk, el anarquismo, las reuniones de esquina, las ruedas de rap —mundos que enseñaban a pensar antes de cualquier manual académico de metodología. Estos espacios no me dieron apenas una identidad, sino una gramática: una forma de nombrar la violencia, el Estado, la desigualdad, la raza y las posibilidades de futuro.

Cuando llegué a la universidad, me di cuenta de que ese repertorio no era neutro: tensionaba expectativas sobre quién “debería” ser yo, de dónde “parecía” venir y qué tipo de lectura me correspondería. A cada semestre en la academia, reaparecía el gesto curioso —a veces solidario, a veces dubitativo— de preguntar si yo “era realmente de la periferia”. Con el tiempo, entendí que tal pregunta no se refería a mí, sino a las disputas simbólicas que rondan la producción del conocimiento: quién puede hablar, quién debe probar, quién necesita explicarse. Al revisar estas capas ahora, no busco consagrar una posición de habla, sino reconocer cómo este campo minado de expectativas y proyecciones terminó convirtiéndose en materia etnográfica, parte del problema analítico, y no solo de mi biografía. 

Lo que estoy componiendo aquí, por lo tanto, no es memoria, sino método: esta travesía se convirtió en lente, en sospecha, en disciplina de la mirada. Es ella la que me aproxima a las letras del punk y del rap como archivos afectivos y políticos de la ciudad; es ella la que aguza la atención hacia las zonas de fricción entre práctica y discurso, entre deseo y estructura. Si mi escritura tiene un punto de partida, este no es un lugar, sino una inquietud persistente —la de que los mundos que me formaron continúan devolviendo preguntas que la teoría, por sí sola, no logra silenciar. 

Cinco escenas sobre la producción cultural de las periferias

En lo que concierne a las tensiones presentadas aquí, considero que estas deben ser analizadas atendiendo a la relevancia de las disputas que componen el contexto de este artículo (ya sean estas políticas o semánticas, y con frecuencia ambas al mismo tiempo). Dicho esto, introduciré hechos que me fueron relatados por mis interlocutores y otros que acompañé de cerca, bien a través del debate público en periódicos y redes sociales, o bien de manera presencial durante el trabajo de campo.

Escena uno: ¿“Nóis por nóis”?

La primera de estas situaciones etnográficas, relatada informalmente por un interlocutor, se refería al desacuerdo entre diversos colectivos sobre quién se presentaría en el escenario central de la Virada Cultural de São Paulo en 2014. Según este interlocutor, el punto neurálgico giró en torno a la enorme cantidad de colectivos periféricos frente al espacio limitado de dicho evento. En una de las reuniones para resolver el conflicto, se presentó la siguiente propuesta: los colectivos que ya contaran con programación en la red SESC São Paulo no actuarían en los escenarios centrales de la Virada Cultural, y viceversa.

El embrollo aumentó cuando “un grupo de los antiguos” reivindicó el derecho a estar en ambos espacios, alegando que habían sido ellos quienes abrieron brecha en muchos de esos lugares y crearon determinados circuitos, a diferencia de los colectivos más jóvenes. Esta situación pone en evidencia una jerarquía que suele ser negada u ocultada discursivamente por diversos actores de esta escena, cuestionando sus propios discursos y las afirmaciones proclamadas en lemas como “É nóis por nóis” [Nosotros por nosotros] y “Nóis é ponte e atravessa qualquer rio!”3 [¡Somos puente y cruzamos cualquier río!], además de visibilizar el ejercicio de disputas basadas en lógicas meritocráticas en lo que respecta a la visibilidad en el campo cultural y a la distribución de las ganancias financieras, dado que tanto la Virada Cultural como el SESC remuneran a los artistas contratados.

Escena dos: Periferias contra el golpe y la campaña de reelección de Fernando Haddad

Otra situación, relatada en una entrevista realizada en 2017, retrata la relación de la alcaldía de São Paulo, durante la gestión de Fernando Haddad (PT, 2012-2016), con un colectivo que formaba parte de mi investigación en aquel momento. Este colectivo, identificado con la izquierda política, siempre veló por su autonomía frente a la política institucional, incluso durante una gestión progresista como la mencionada. En 2016, el Partido de los Trabajadores hizo un llamamiento a individuos, colectivos y movimientos culturales de las periferias de São Paulo para firmar una carta de apoyo a la entonces presidenta Dilma Rousseff (PT, 2010-2016), titulada “Periferias contra o golpe” [Periferias contra el golpe]. El colectivo en cuestión decidió no firmar la carta por no respaldar a ningún partido político institucional, dejando a criterio de sus integrantes hacerlo o no a título individual.

En ese mismo año 2016, la situación se repitió cuando el colectivo no firmó la carta de apoyo de los movimientos culturales a la reelección de Haddad, por los motivos ya señalados. Según el entrevistado, en ese mismo año a dicho colectivo le fueron rechazados sus proyectos en el VAI4 y fue excluido de otro programa que incluso había ayudado a crear. Esta situación demuestra que, aun en el campo progresista, la cultura es percibida y movilizada en función de intereses partidistas y no exactamente con arreglo al interés público. En la misma entrevista, el interlocutor afirmó además que, al margen de sus beneficios, las convocatorias públicas (editais) generaron acomodamiento en los colectivos — que dejan de producir cuando no resultan seleccionados — y crearon una competencia, a priori vetada entre ellos, en el marco de esta disputa por financiamiento. Esta última afirmación fue corroborada por otros entrevistados durante mi investigación de iniciación científica (2016-2019), así como en las entrevistas realizadas durante la maestría (2020-2024).

Escena tres: El alcalde gestor versus los productores culturales de las periferias

Otra situación de la que hice seguimiento a través de las redes sociales fue el desencuentro de los productores culturales de las periferias de São Paulo con el alcalde João Dória (PSDB, 2017-2018), quien asumió el cargo generando una enorme controversia con los agentes culturales periféricos. Ya en campaña, Dória había lanzado provocaciones prometiendo trasladar la Virada Cultural fuera del centro de São Paulo, además de afirmar que “los pancadões [fiestas de funk] en la periferia de São Paulo son un cáncer que destruye la sociedad”5, en una postura abiertamente opuesta a la de la gestión anterior de Fernando Haddad. Haddad no solo entabló un diálogo directo con los productores culturales de las periferias, sino que promovió diversos proyectos y acciones en la materia, aprobando leyes dirigidas a la producción cultural periférica, ampliando el programa VAI, creando el Plan Municipal del Libro, Lectura, Literatura y Biblioteca, y sancionando la Ley de Fomento a las Periferias.

Dória, por su parte, ejecutó una política higienista, caracterizada por la represión a la población de la Cracolândia, la eliminación de grafitis y pintadas en las vías públicas y el congelamiento del presupuesto destinado al área de cultura, en especial para las periferias, tensando aún más su relación con los colectivos culturales. Estos últimos, sin embargo, en mayo de 2017 ocuparon la Secretaría Municipal de Cultura de São Paulo exigiendo la liberación de los fondos congelados y la dimisión del entonces secretario de cultura, André Sturm, quien días antes había amenazado a un gestor cultural de la periferia diciéndole: “te voy a romper la cara”6

El embate entre parte de los productores culturales de las periferias y la alcaldía de Dória generó situaciones peculiares. Una de ellas fue la campaña en defensa de Sturm donde, a través de testimonios grabados en video, diversos productores culturales de la ciudad se solidarizaban con él, exaltando su trayectoria en la cultura, y tejiendo críticas a los “grupos privilegiados que no quieren deshacerse de sus privilegios”, refiriéndose a los colectivos culturales de las periferias, como señalaba la declaración del politólogo Christian Lohbauer7. Todos estos videos poseían un fondo gris, lo que daba a entender que fueron realizados en el mismo lugar, y los testimonios recabados eran, en su gran mayoría, de productores culturales ya establecidos en el circuito de São Paulo y/o vinculados al hacer cultural tenido como perteneciente a la “alta cultura” de la ciudad. 

En medio de tales testimonios, se encontraban dos figuras disonantes – no solo estéticamente, sino principalmente en lo que concierne a sus orígenes. Se trataba de dos productores culturales de las periferias, hombres negros (los únicos, cabe destacar), raperos, integrantes de la Casa Hip Hop Sul, en São Paulo. Uno de ellos, Eazy Jay, afirmaba insistentemente sobre la necesidad del diálogo y la importancia de que la periferia difunda su cultura, señalando las cualidades y el compromiso del secretario Sturm. Era notable que el deponente parecía estar leyendo su declaración. De acuerdo con las palabras de Eazy Jay, “nuestra cultura tiene que ser difundida y mientras nos mantengamos en confrontación, ella [la cultura] se queda paralizada. Y hay personas esperando para ser insertadas en la cultura. Y eso depende de nosotros, que trabajamos con la cultura, que somos varios. Entonces vamos a buscar a través del diálogo. Es eso.” En aquel momento, no noté ninguna repercusión sobre el hecho en las redes sociales o entre mis interlocutores de investigación. Solo el portal Agenda Preta realizó un artículo crítico8 sobre el asunto, inclusive destacando aquel elemento que parecía incomodar y desestabilizar las expectativas sobre las alianzas y conflictos esperados a partir de la actuación de la alcaldía municipal en aquel momento: la presencia de dos productores culturales negros y de las periferias allí, en defensa de un representante del “sistema” – sobre todo uno no alineado con partidos progresista9.

Escena cuatro: La detención del grafitero/artista plástico

Paralelamente a la tensión citada anteriormente, hubo una más que merece atención, que involucró al alcalde-gestor João Dória: la detención del grafitero/artista plástico Mauro10, uno de los fundadores del colectivo cultural Imargem11, así como el creador de la intervención visual/urbana Veracidade12. Mauro, durante los primeros meses de Dória en la alcaldía, intervino contra el borrado de sus obras por orden de la alcaldía, lo que resultó en su detención. Para aminorar su situación frente a una oleada de críticas, el citado alcalde anunció una política dirigida a los grafiti, creando el Museu de Arte de Rua: un lugar específico, elegido por la alcaldía, donde artistas autorizados podrían realizar sus trabajos, mediante una definición previa de sus obras. La iniciativa causó más controversia, particularmente entre los grafiteros/artistas plásticos y los pichadores, en un contexto en el que los primeros terminaron por recibir el título de artistas por parte del poder público, mientras que los segundos continuaron siendo considerados como vándalos y delincuentes. El MAR también dividió a los propios grafiteros: entre quienes eran críticos respecto al proyecto y quienes se integraron al mismo, formando parte de la comisión evaluadora del museo, como el propio Mauro13, quien a su vez también tuvo un proyecto aprobado por la alcaldía en 2019, para participar en las exposiciones promovidas por el MAR.

Escena cinco: La portada de revista

Por último, traigo otro significativo ejemplo etnográfico, también público: el artículo de la revista Veja São Paulo14, publicado en junio de 2018. De inicio, el artículo me llamó la atención por el uso del término “emprendedores”, movilizado con la evocación del universo de la cultura producida en las periferias. Fue la primera vez que vi la producción cultural de las periferias de São Paulo asociada a una idea de emprendimiento, a una visión de negocios. Distribuido en bloques, el artículo presentaba a los productores culturales que ilustraban la portada de la revista, donde cada bloque funcionaba como una especie de miniportafolio individual, conteniendo los principales logros de cada uno, sus alianzas y los valores en dinero, tal como eran movilizados por esos jóvenes, caracterizados como emprendedores. Igualmente, el reportaje estaba repleto de frases de impacto, remitiendo a un imaginario estructurado en la idea de superación individual, desvinculando la cultura de una movilización política más amplia y colectiva, como, al menos en el discurso, se caracterizó la producción cultural de las periferias décadas atrás. De hecho, el referido artículo no hacía ninguna mención a las desigualdades estructurales existentes en estos contextos, tal como eran enfrentadas por los sujetos que producían cultura en las periferias. Ni el racismo, insoslayable para entender tales dificultades, llegaba a aparecer en el artículo. Las injusticias, cuando eran citadas, sonaban como naturales, innatas a aquel territorio y a aquellas personas, pero que, por otro lado, podrían ser superadas con mucho esfuerzo individual.

De las paradojas culturales en las periferias: algunos apuntes

Cabe resaltar que al referirme a estos paradojas, no busco una esencia imborrable de aquello que se convencionó llamar producción cultural de las periferias. Lo que pretendo es justamente reflexionar sobre la actuación de estos agentes, sus proposiciones políticas, sociales y culturales, teniendo en cuenta los recorridos y relaciones con las instancias de poder, sean públicas o privadas, a fin de desarrollar sus trabajos a lo largo de los años, verificando, asimismo, lo que se acumuló en toda esa trayectoria donde la cultura es la punta de lanza – y frecuentemente tomada como argumento irrefutable – de innumerables actitudes, transformaciones, transacciones y movilizaciones dentro y a partir de las periferias. Ya sea por el mercado cultural, ya sea por distintos productores culturales de las periferias.

Dicho esto, presentaré un panorama histórico sucinto sobre la producción cultural de las periferias en São Paulo. Si, en el inicio de esa movilización cultural en las periferias de São Paulo, la relación con el poder – o como el escritor Ferréz decía, “el sistema”15 – era casi antagónica, en un tono de crítica y denuncia de ese mismo sistema, en el transcurso del tiempo las relaciones se volvieron habituales, progresivamente despolitizadas, desradicalizadas y complejas, principalmente con el poder privado (sobre todo en su inserción/asimilación por el mercado), ambos a partir de políticas de financiamiento para la arena cultural. La relación actual sugiere una emancipación a partir de la integración – por vía de la cultura y del consumo – con “el sistema”. Sin embargo, el carácter antisistémico (REYES, 2013; SANTOS, 2019, 2024) de enfrentamiento con el capitalismo y con el establishment brasileño, en la época del surgimiento de la Literatura Marginal/Periférica, queda – al menos discursivamente – evidente en este extracto del texto “Terrorismo Literario”, escrito por Ferréz: 

[…] El sueño no es seguir el patrón, no es ser el empleado que se convirtió en patrón, no, eso no, aquí nadie quiere humillar, pagar migajas ni pensar, nosotros sabemos el dolor por recibirlas. Estamos en contra de su opinión, no viviremos o moriremos si no tenemos el sello de la aceptación, en realidad todo va a continuar, quieran muchos o no. Un día la llama capitalista hizo mal a nuestros abuelos, ahora hace mal a nuestros padres y en el futuro va a hacer a nuestros hijos, el ideal es cambiar la cinta, romper el ciclo de la mentira de los “derechos iguales”, de la farsa del “todos son libres”, nosotros sabemos que no es así, vivimos eso en las calles, bajo las miradas de los nuevos capitães do mato, policías que son pagados para recordarnos que estamos clasificados por tres letras clases: C, D, E. Literatura de calle con sentido, sí, con un principio, sí, y con un ideal, sí, traer mejoras para el pueblo que construye este país pero no recibe su parte. (FERRÉZ, 2005, pp. 9-10).

Según Leite, “[l]a literatura de la periferia de São Paulo se divide en dos períodos: a) Literatura Marginal, de 2000 a 2005 y b) Literatura Periférica, a partir de 2005 hasta la actualidad” (LEITE, 2014). Es a partir de esta “segunda ola”, marcada por el crecimiento de los saraus, que es posible delinear el cambio de sentido de los discursos y de las prácticas en relación con la manera en que los sujetos en este contexto perciben y reaccionan ante la presencia del poder, justamente cuando el mercado cultural de São Paulo comienza a abrirse a los colectivos e individuos productores de cultura de las periferias. O, justamente cuando ya no es posible ignorar la repercusión de tales producciones. La literatura marginal/periférica se destaca a partir de los saraus, abriendo paso entonces para otras producciones, como el graffiti, las artes plásticas, el teatro y el audiovisual, a la atención de otros agentes involucrados en el mundo del arte y de la cultura en São Paulo – ya sea como consumidores o como productores.

Así, surgen colecciones de libros, convocatorias de fomento y “alianzas” con instituciones privadas. La discusión sobre la cultura de periferia gana protagonismo más allá de los territorios donde surgió y es movilizada tanto por los propios productores culturales de las periferias como por la academia y por sectores culturales públicos y privados. Aderaldo (2017) afirma que durante este proceso el concepto de “ciudadanía cultural”16 ganó mayor fuerza y espacio en la ciudad de São Paulo, transformando las relaciones de los movimientos políticos y culturales de las periferias – marcadas, hasta entonces, por un enorme desinterés y por la tensión y el enfrentamiento – con el poder público y privado.

[…] el surgimiento de una serie de colectivos y movimientos culturales en regiones periféricas y la inversión considerable en políticas –por parte de los órganos gestores de las esferas federal, estatal y municipal– orientadas por el referido principio de la “ciudadanía cultural”, a comienzos de los años 2000, generó importantes efectos prácticos, como una sensible multiplicación del número de ONG dedicadas a la enseñanza de actividades culturales junto a poblaciones consideradas como social o culturalmente “marginalizadas”, la ampliación de las oportunidades de creación y disfrute artístico por parte de esas mismas poblaciones y el fortalecimiento de espacios “alternativos” de producción y consumo cultural, sobre todo en las regiones periféricas de los grandes centros urbanos. (ADERALDO, 2017, p. 22).

Las cuestiones sobre el alcance de la actuación de los sujetos y sus obras, así como sobre la relación establecida con el poder constituido –hasta entonces ajeno a aquel universo cultural de las periferias–, que marcaron la forma en que algunas transformaciones fueron percibidas por mis interlocutores de investigación, se vuelven aún más evidentes y significativas cuando tenemos en cuenta el “proyecto pedagógico, estético y político” (NASCIMENTO, 2009) identificado en esas producciones. Nascimento (2009) afirma que tal proyecto hace alusión al uso de la literatura como un acto político que busca dialogar con las poblaciones de las periferias urbanas brasileñas. Se refiere a la construcción de un discurso que pretende “enseñar” o “ampliar” la capacidad crítica del público, por medio de textos con fondo moral y/o ético (NASCIMENTO, 2009, p. 80).

Observar las escenas descritas arriba era algo que desentonaba mucho de aquello que acompañé en campo, desde el período de investigación de la iniciación científica hasta la escritura de la monografía (2019) resultante de estas indagaciones, y que pasé a mirar con atención durante la maestría. Incluso con diferencias, la producción cultural de estos colectivos estaba orientada por la crítica a las desigualdades sociales y estructurales, con la intención de superarlas; y por las acciones políticas en un campo político descrito como de izquierda, similar a la idea de poder popular de un imaginario social más amplio. Su idea de cultura era cercana a un proyecto de autodeterminación de las periferias, con acceso a equipamientos públicos de calidad, como escuelas, centros de salud, guarderías y afines, de la misma forma que contra el genocidio de la población negra y periférica. Temas que, en más de una ocasión, presencié ser discutidos más allá de su mención en poesías y textos, dentro de las actividades de esos dos colectivos.

Esto no significa que a los colectivos y sujetos del artículo de la revista Veja São Paulo no les importen tales temas. Sin embargo, sus discursos y acciones parecen reorganizar prácticas y establecer nuevas tensiones y disputas. El referido artículo sintetiza la percepción de que existen nuevas lógicas en juego, redefiniendo disputas y produciendo nuevas dinámicas que considero fundamentales analizar. El reportaje parece alinearse con un discurso muy presente en la esfera social actualmente, derivado de una lógica empresarial en la que las personas y sus complejidades son recursos que necesitan ser gestionados para “salir bien”. Una lógica donde el enfrentamiento y la superación de las desigualdades estructurales se dan en el ámbito del éxito individual, y dependen exclusivamente del esfuerzo personal. Una lógica que busca silenciar –con todo un aparato material, estético y subjetivo– la historia colectiva de luchas, movilizaciones y conquistas de las periferias, transformando estas en valores meritocráticos, de autoayuda o de mercado. O bien, transformando el deseo de dignidad y de calidad de vida de las personas en una esencia emprendedora. Estaba en curso algo aparentemente muy diferente de los propósitos enunciados por los productores culturales de las periferias en el momento del surgimiento de estos colectivos como una movilización político-cultural, hace más de veinte años.

Esta lógica empresarial, de negocios, emprendedora y meritocrática, típicamente neoliberal, más que nunca ha sido estimulada en la actualidad. Sin embargo, el término cultura nunca fue tan evocado a partir de esa lógica como ahora, paradójicamente en nombre de la inclusión, de la diversidad y de la representatividad, con la movilización de procesos relacionados con la constitución de identidades a partir de la cultura. Stuart Hall (2016) reflexiona sobre la relación entre cultura y poder al retomar el análisis de Foucault del cuadro Las Meninas de Diego Velázquez. Al retomar la discusión, Hall también presenta la problemática sobre el cuadro al debatir sobre quién está siendo representado en la pintura, cuál es el sujeto de la pintura, toda vez que demuestra cómo es posible multiplicar los ángulos y perspectivas sobre qué sujetos están siendo representados, al acompañar el juego de espejos y miradas en la obra del pintor español. Sin embargo, sugiere Hall, el sujeto “principal” a ser representado en el lienzo de Velázquez es el espectador. O, como diría Foucault, el “sujeto-espectador”. Según Hall, la pintura de Velázquez solo tiene sentido al abandonar la noción de que tiene una posición fija en sí misma. Este sentido es, “por lo tanto, construido en el diálogo entre la pintura y el espectador” (HALL, 2016, p. 106). El autor también apunta que:

En este sentido, el discurso produce una posición de sujeto para el espectador-sujeito. Para que la pintura funcione, el espectador, quienquiera que sea, debe primero sujetarse al discurso de esta y, de esa forma, convertirse en el espectador ideal de la pintura, el productor de sus sentidos –su sujeto–. Esto es lo que significa cuando se dice que el discurso construye al espectador como un sujeto –con lo que queremos decir que construye un lugar para el sujeto espectador, que está mirando y produciendo un sentido para la escena–. (HALL, 2016, p. 107). 

Tal como lo delinea Hall, ¿cómo podemos pensar el discurso del mercado y su actual interés por las identidades culturales no hegemónicas en el contexto actual, incluida la identidad periférica? Con respecto a la representación dentro de la lógica de mercado, podríamos preguntarnos: ¿esta también sujeta las identidades que buscan representación y legitimidad a su discurso, primordialmente, incluso cuando son consideradas al margen y no en el “centro de la pintura”? Es evidente que las periferias tampoco están fuera de los intereses de esta lógica. Si algo ha sido movilizado a partir de las periferias por el mercado, son sus identidades culturales. Aún en la obra supracitada, el autor discute acerca del racismo como un movilizador social, subjetivo y económico del Imperio. ¿Será que actualmente podemos entender cierto aspecto del antirracismo y de la promoción de la diversidad cultural como un nuevo bien comercial del Imperio, es decir, del poder? Es interés de este trabajo señalar los aspectos de esa relación entre cultura, neoliberalismo y (neo)colonialismo, considerando, tal como nos enseña Hall, la importancia de desplazar presupuestos y certezas al considerar la política y el poder en la producción y en el análisis de la cultura. 

Este artículo se alinea además con aquello que Lila Abu-Lughod denominó “la escritura contra la cultura” (ABU-LUGHOD, 2018). La autora teje diversas cuestiones relevantes sobre el hacer antropológico y sus desafíos críticos, referenciando diversos aportes no solo de la antropología feminista, sino también de la antropología producida por no blancos/as y no occidentales para indicar ciertos puntos ciegos de una crítica que no vuelve hacia sí misma la reflexión sobre su posición. Una de las críticas más afiladas en el texto es la que se detiene sobre el concepto de cultura:

[…] El concepto de cultura es el término oculto en todo lo que ya se ha dicho sobre antropología. La mayoría de los/as antropólogos/as estadounidenses cree o actúa como si creyera que la “cultura”, notoriamente difícil de definir y ambigua como referente, aun así fuera el verdadero objeto de la investigación antropológica. No obstante, podríamos decir que la cultura es importante para la antropología gracias a la distinción antropológica entre yo y otro que en ella subyace. […] Pero a pesar de su intención antiesencialista, el concepto de cultura mantiene ciertas tendencias a cristalizar diferencias, algo que conceptos como raza también hacen. Esto se vuelve más evidente si observamos un campo en el que el cambio se haya dado de un concepto hacia el otro. El orientalismo como discurso académico (entre otras cosas) es, de acuerdo con Said (1978, p. 2), “un estilo de pensamiento basado en una distinción lógica y epistemológica hecha entre ‘el Oriente’ y (en la mayor parte de las veces) ‘el Occidente’”. Lo que él muestra es que, al cartografiar conjuntamente geografía, raza y cultura, el orientalismo fija ciertas diferencias entre personas “del Occidente” y personas “del Oriente” de maneras tan rígidas que pueden fácilmente ser consideradas innatas. (ABU-LUGHOD, 2018, pp. 200-201).

Tal como sirve de alerta para el propio análisis antropológico propuesto por la autora, es relevante aquí no solo entender cómo las agencias de fomento y mis interlocutores movilizan el concepto de cultura, sino interpretar qué tipo de “otro” se construye a partir de ello, discursiva y subjetivamente, y cómo mis interlocutores comprenden y significan este proceso. Así, teniendo en cuenta nuestro pasado colonial y sus implicaciones en el contexto de las periferias, al igual que el modo en que se ha movilizado el concepto de cultura en torno a estas, este trabajo acata la indagación que Lila Abu-Lughod les hace a los/as antropólogos/as y a la antropología, a partir de su lectura de Edward Said. Esto es, si “¿deberían los/as antropólogos/as tratar ‘cultura’ y ‘culturas’ con la misma sospecha, siendo estos términos clave en un discurso en que otredad y diferencia terminan por convertirse, como dice Said (1989, p. 213), en ‘cualidades talismanicas’?” (ABU-LUGHOD, 2018). Por consiguiente, la movilización del término cultura, por parte de sus diferentes agentes, estará bajo sospecha y será demarcada de acuerdo con los intereses en torno a ella.

Vale decir que este trabajo no se encuadra en un análisis detenido sobre la producción artística de las periferias, aun cuando la literatura científica sobre el tema sea fundamental para mis reflexiones. Parte de esta bibliografía es movilizada aquí, como los trabajos de Aderaldo (2017), D’Andrea (2022), Leite (2014a; 2014b), Nascimento (2009; 2011; 2016), Reyes (2013), Silva (2013; 2016), Tennina (2016; 2017). Estos trabajos, y otros, se detuvieron en evidenciar las particularidades de la cultura producida en las periferias, anunciando sus novedades y contribuciones, además de celebrar sus cualidades. Y es por estas cuestiones y otras ya presentadas que este trabajo privilegia una investigación sobre “las palabras de incentivo que el sistema da” (GONÇALVES, 2004) a tal producción y las encrucijadas en las que esta se encuentra.

Las palabras de incentivo que el sistema da: La “periferia neoliberal”

Cabe aquí recorrer otros hechos en la arena pública que también tienen implicaciones en el hacer cultural en las periferias y en la agencia de sus actores, como mis interlocutores. Uno de estos hechos está materializado en la investigación del Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos de la Fundação Perseu Abramo, titulada “Percepciones y valores políticos en las periferias de São Paulo”, que “reveló” una tendencia conservadora y liberal en las periferias. La investigación revela, asimismo, la incapacidad del principal partido progresista brasileño para hacer una autocrítica seria sobre su actuación en los últimos cuarenta años. Publicado en 2017, el estudio tuvo gran repercusión en los medios y causó un interesante debate intelectual, en el que parte de los análisis señalaba a la periferia como liberal, conservadora e incluso anarquista. También hubo muchas críticas a la lectura realizada por la investigación, señalando la falta de profundidad, la crisis de representatividad, así como la fetichización de la pobreza por parte de la “izquierda”17, además del clima de polarización y la falta de un proyecto de sociedad más allá del acceso al consumo. Se nota que, en muchos artículos como en la investigación citada, además del tenor esencialista y romántico sobre las periferias, hay un tono de estupefacción ante el aspecto conservador y liberal de buena parte de las respuestas de los sujetos de los colectivos culturales a las indagaciones sobre los cambios en el escenario cultural periférico. Como si la periferia y los pobres –una vez más– fueran un mundo aparte o bien el “sujeto ideal” del lulopetismo y del progresismo, o el “sujeto revolucionario” por excelencia de la izquierda brasileña.

En medio de la profusión de artículos derivados de la referida investigación, dos llaman mucho la atención por poseer un análisis asertivo sobre el “fenómeno” del conservadurismo y del liberalismo en las periferias y favelas de São Paulo. La primera es una entrevista18 del sociólogo Gabriel Feltran en abril de 2017. En esa entrevista, al ser cuestionado sobre la dificultad que la izquierda tiene para comprender ese universo de las periferias y sobre cómo la izquierda se distanció de los trabajadores, Feltran afirma que:

[…] En las elecciones municipales las periferias de São Paulo eligieron a Erundina, a Maluf, a Pitta, a Marta, a Kassab, a Haddad y a Dória. Pero, fíjate, votaron a Lula, mayoritariamente, desde 1989. Es evidente, entonces, que no es un voto ideológico, partidario, en el sentido clásico derecha vs. izquierda, que mucha gente quiso y quiere ver. Es un voto que concibe el mundo a partir de la proximidad, de la relación personal, de la confianza en la ética del candidato, un voto próximo y moral. Que por eso siempre estuvo muy próximo a las iglesias, espacios altamente politizados. Y sabemos que la expansión pentecostal es mucho más conservadora que progresista, al contrario de las comunidades de base católicas. […] Las izquierdas fueron perdiendo el voto en las periferias, en los últimos años, cuando dejaron de ser izquierdas. Es decir, cuando perdieron proximidad con lo que sucedía en el mundo popular. Y cuando consideraron que esa proximidad, que las comunidades de base tenían, que las pastorales tenían, que los sindicatos tuvieron, era menos importante electoralmente que la televisión y las políticas populares de mejora del bienestar, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, etc. Y aún peor, cuando perdieron la imagen de cambio, de renovación. Cuando se volvieron moralmente iguales a los demás políticos tradicionales. No hay espacio vacío en política. Otros grupos, como las policías militares (que tienen horas de programa diario en la televisión abierta, dentro de las casas de las periferias, con figuras carismáticas como presentadores), los evangélicos (con sus acciones mediáticas y de base), así como el emprendimiento del mercado de trabajo, han estado mucho más cerca. Y estando cerca, ganan elecciones allí. (Gabriel Feltran, en entrevista concedida a Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, el 17/04/2017).

En el mismo año, otra entrevista19 significativa y emblemática – en sintonía con la percepción política de las periferias en São Paulo – fue dada por Mano Brown, de Racionais MC’s, grupo musical considerado representante fidedigno de las periferias. En la entrevista, Brown también es inquirido sobre las transformaciones ocurridas en las periferias en los últimos años y la relación de esto con la coyuntura política nacional, en especial la polarización entre izquierda y derecha, sobre lo cual pondera cuestiones interesantes:

Tim Maia decía esto: en Brasil, el pobre es de derecha. El gobierno de Lula le dio la condición al pueblo de tener algunas cosas, y después de ese gobierno el pueblo quiere policía para defender esas cosas. Se convierte en un tipo de derecha, que defiende los valores que lo jodieron. Eso se reflejó contra el negro. Vas al Norte, Nordeste: Fortaleza, campeona de homicidios en el país. Maceió, Salvador, Recife… Muere negro para carajo. Si en la época de Lula ya era difícil, ¿imagínate ahora? Ahí los muchachos se vuelven facción directamente. Tomas a un tipo que fue abandonado por todo el mundo y lo acoges, le das asistencia, un nombre, una familia… (Mano Brown, en entrevista concedida a Le Monde Diplomatique Brasil, el 08/01/2018).

En ambas entrevistas, queda en evidencia que la mayor cuestión en las periferias es y siempre fue la supervivencia, la reproducción de la vida. Y esto fue y sigue siendo movilizado y disputado de diferentes formas, con la primacía de quien ofrece respuestas concretas para situaciones cotidianas. Aunque esto signifique más represión policial, o como diría un antiguo político conservador, “la Rota en la calle”. Además, vale citar que fueron pocas las veces que la población del municipio de São Paulo permitió que una gestión progresista pudiese actuar. Qué decir de la del Estado.

Sin embargo, es interesante otro hecho sobre el que ambos entrevistados no se extendieron, pero que también está ligado a la Fundação Perseu Abramo y al Partido dos Trabalhadores que, no obstante, no formó parte del análisis de la referida investigación. Se trata del surgimiento de las convocatorias públicas (editais) y de la infraestructura creada en torno a estas para la capacitación de los jóvenes productores culturales de las periferias en la captación de recursos para sus proyectos. Entiendo que este momento es fundamental para comprender no solo el contexto actual de la producción cultural en las periferias, sino también para dar una posible respuesta a la citada investigación de la Fundação Perseu Abramo y su “visible decepción”, al nombrar a la periferia como neoliberal. Aderaldo (2017) señala algo importante sobre este tema: con el surgimiento de las convocatorias, paralelamente se creó una infraestructura técnica en torno a los colectivos e individuos productores de cultura en las periferias, para capacitarlos en la elaboración de proyectos y captación de recursos. Además de instruirlos en ese sentido, tal iniciativa fomentó la búsqueda de financiamiento privado, ya que muchas de sus convocatorias provenían de la alianza con ONG y otras alianzas público-privadas. Asimismo, los pertrechó con un aparato semántico y subjetivo correspondiente a tal medio de negocios sociales.

Se creó, entonces, un circuito que salió de las periferias y accedió a los espacios de la cultura hegemónica en la ciudad de São Paulo. La producción cultural de las periferias ganó espacio en diversas instituciones y eventos prestigiosos de la ciudad. Se trata de innumerables beneficios traídos por las convocatorias que también trajeron otras cuestiones que es preciso comprender. Como Aderaldo nos muestra, al acompañar a un colectivo de audiovisual, cuando surge la posibilidad de que este se institucionalice ante el Ministerio de Cultura y la Secretaría Municipal de Audiovisual para angariar mayor capital cultural y financiero, la heterogeneidad que componía el grupo –que tenía principios políticos más alineados con los movimientos populares y sociales y contra las reglas del mercado, preocupándose inclusive por la formación de sus integrantes y público– tomó proporciones controversiales. En medio de conflictos internos, intereses dispares de aquellos que habían originado el grupo acabaron por volverse centrales, muchas veces siendo justificados por la movilización esencialista de una noción de periferia, desprovista de mayor amplitud política. Sobre ese momento, Aderaldo afirma que:

Poco a poco la red fue migrando de una asociación orientada a la coordinación de eventos y acciones públicas entre colectivos culturales especialmente dedicados al lenguaje audiovisual en la ciudad, en dirección a una entidad responsable de la dinamización de la distribución y divulgación de películas realizadas por colectivos con propuestas y posicionamientos radicalmente diversos, siendo que una parte de estos fue atraída solamente por la oportunidad de compartir los beneficios proporcionados por la eficiencia del sistema de distribución y exhibición de películas, promovido por la organización reticular del CVP. De este modo, una variedad de posturas y representaciones que habían inicialmente incentivado la crítica por parte de esta red de colectivos, pasaron a encontrarse dentro de ella misma, lo que traslucía en las películas que recibían, en los textos que acababan siendo publicados en la revista que editaban y en el vaciamiento de las reuniones. (ADERALDO, 2017, p. 192).

Como mis interlocutores relataron en entrevistas (SANTOS 2019, 2024), las convocatorias públicas (editais) también promovieron una disputa entre los colectivos, al mismo tiempo que una dependencia de ellos respecto al modelo de financiamiento para la cultura. Tommasi y Velazco (2016) hacen una observación similar sobre un proyecto social destinado a los jóvenes de favela en Río de Janeiro, lo que nos hace concluir que este proceso ocurre también en otros contextos urbanos en Brasil. Además, el acceso a las convocatorias y la captación de recursos traen consigo discursos, subjetividades y visiones de mundo específicas. La subjetividad, aquí, es abordada desde la perspectiva de Ortner:

Por subjetividad yo siempre me referiré a una conciencia cultural e históricamente específica. Al usar la palabra conciencia no tengo la intención de excluir varias dinámicas inconscientes, como se ve, por ejemplo, en el inconsciente freudiano o en el habitus bourdiano. Pero lo que quiero decir es que la subjetividad es siempre mayor que estas cosas, y de dos maneras. En el nivel individual, voy a suponer, con Giddens, que los actores siempre son al menos parcialmente “sujetos cognoscentes”, que poseen algún grado de reflexividad sobre ellos mismos y sus deseos, y que poseen alguna “penetración” en los medios en los cuales son formados por sus circunstancias. Ellos son, en resumen, conscientes en el sentido psicológico convencional, algo que tiene que ser enfatizado como un complemento, y no en sustitución, a la insistencia de Bourdieu en la inaccesibilidad, para los actores, de la lógica subyacente de sus prácticas. En el nivel colectivo, uso la palabra conciencia tal como es usada tanto por Marx como por Durkheim: como la sensibilidad colectiva de un conjunto de actores socialmente interrelacionados. La conciencia es, en este sentido, siempre ambiguamente parte de las subjetividades personales de las personas y parte de la cultura pública […] (ORTNER, 2007, pp. 380-381).

De acuerdo con esa ambigüedad que compone la subjetividad y la conciencia social, se percibe que, por un lado, la infraestructura en torno a las convocatorias públicas (editais) posibilitó el financiamiento y el desarrollo de diversas producciones culturales en las periferias –lo que garantizó su visibilidad, así como la de sus agentes, en el circuito cultural hegemónico–; por otro lado, también capacitó la especialización en la captación de recursos más allá de las convocatorias públicas de cultura, como el financiamiento de empresas e instituciones privadas, y también fomentó escisiones, jerarquías, disputas y una masa de “trabajadores culturales de convocatoria” (trabalhadores culturais de edital) (DE TOMMASI & CORROCHANO, 2020; DE TOMMASI & SILVA, 2020) precarizados. En relación con el poder público y privado y la capacitación en el uso de convocatorias de fomento, hay tres testimonios interesantes de líderes – Marcio Batista, Rose Dórea y Sergio Vaz – de la Cooperifa20, presentes en el trabajo de Nascimento (2011), los cuales reproduzco abajo y que ayudan a entender esta dinámica.

Que el VAI nos esté financiando es una obligación… nosotros sí participamos porque es dinero público […] ¿Y el dinero de Itaú Cultural, es de Itaú? No es del Banco Itaú, ese dinero también es dinero público que el gobierno, para no tener esa responsabilidad que es del MinC de hacer la distribución del presupuesto público, ¿qué es lo que hace? Le da exención al Banco Itaú y el Banco Itaú creó una institución. Y el dinero, que es público, queda en manos de una institución cultural. Entonces, ¿qué es lo que hacemos nosotros? ¿El juego no funciona así? Nosotros estamos en el juego, entonces… con Itaú Cultural es esa relación de dinero público que ellos están allá administrando y mientras funcione así, ¿no?, y si nosotros consideramos que debemos ir allá… (Márcio Batista en entrevista con Érica Peçanha do Nascimento el 25 de julio de 2011).

Rose Dorea añade:

[…] Pero, ponte tú, cuando Itaú vino, de la forma en que Itaú vino, me pareció muy bonito, vino de una forma legal. Pero hubo otros lugares… el VAI fue algo que me preocupó un poco… cómo iba a venir el VAI… aun siendo dinero público, porque nosotros tenemos ese asunto de ser medio autosustentables, ¿no? Y ahí no sé cómo iba a sonar en la cabeza de algunas personas el hecho de que la Cooperifa hubiera aceptado esa plata, ¿entiendes? Pero solo por eso, no que… yo creo que, siendo dinero público, hay que tener mucho cuidado de no perder el foco, de hacer lo que mucha gente hace, que es usar ese dinero en provecho propio… porque, quieras o no, aun haciendo nosotros todo lo que hacemos, mucha gente cree que nosotros hacemos eso, que nosotros agarramos el dinero y lo usamos en cosas para nosotros, pero eso es algo que no pasa, eso es algo que me duele bastante, ese es el tipo de comentario que acaba conmigo (Rose Dorea en entrevista con Érica Peçanha do Nascimento el 25 de julio de 2011).

Y por último, Sérgio Vaz habla sobre la importancia de la principal alianza de la Cooperifa, que “viabilizó” la antología O rastilho da pólvora, de 2004, el CD de poesías Sarau da Cooperifa, de 2006, y la Revista Cooperifa, de 2011, así como financió la Semana de Arte Moderna de la Periferia y la Muestra Cultural de la Cooperifa […]” (NASCIMENTO, 2011). Sobre esta alianza, Vaz afirma:

Yo creo que todos nuestros sueños fueron posibles gracias a las alianzas. Es como dije: hay cosas que se pueden hacer sin dinero y hay cosas que no se pueden hacer sin dinero. Y hay cosas que se pueden hacer con dinero, pero sin la alianza no se puede, existe una alianza afectiva también. En mi concepción, Itaú no es solo el edificio, no es solo un banco, yo conozco a las personas que están allá, almuerzo con ellas, tomo cerveza con ellas, entonces no es solo la plata, entonces es una alianza afectiva… así como nosotros ya hemos rechazado otras alianzas, ¿entiendes? Por increíble que parezca, estamos facilitos, pero no estamos tan facilitos [risas]. (Sérgio Vaz en entrevista con Érica Peçanha do Nascimento el 29 de julio de 2011).

Es notable la articulación en torno a los financiamientos por parte de la Cooperifa, así como la visión de sus integrantes sobre lo que llaman alianzas. Es simbólico también el hecho de que el VAI, al mismo tiempo que es una “obligación”, causa temor sobre cómo “vendrá” y cómo será la percepción pública del uso de esta convocatoria por parte de la Cooperifa, al igual que su rendición de cuentas y en la idea de “autosustentabilidad” del grupo. Cabe pensar el modo en que las subjetividades son movilizadas para justificar las acciones a las que estos agentes se proponen, movilizando sus anhelos, voluntades y deseos, dentro del sistema cultural en el que están insertos.

Durante la maestría, también me topé con testimonios21 donde la percepción sobre financiamiento público y privado apuntaba hacia una visión crítica del poder público, reconociendo el financiamiento privado como una posibilidad más efectiva para la realización de las acciones culturales de calidad y para la valorización de los productores culturales, como afirmó Vanilson, integrante de Imargem, retratando el proceso de acceso tanto de Imargem como de Ecoativa22 a las convocatorias de financiamiento del sector privado:

[…] Creo que esa idea de convocatoria pública y empresas privadas nos hace pensar un poco así, ¿no?, que la convocatoria es una ayuda de costa. No es ningún salario y no es ninguna renta. Es una ayuda de costa, ¡y eso si acaso! A veces muy, muy mínima. Nosotros tenemos que hacer tres proyectos con convocatorias para tener una renta bien, así, para que tú digas “che, por mes, logro mantenerme”. Y el SESC trajo una idea que no era esa, de ayuda de costa. Que nosotros necesitamos, realmente necesitamos ser costeados por el trabajo que haces, remunerados. Y ahí vino esa idea de que la convocatoria es una ayuda de costa, pero las empresas privadas es una cosa remunerada, que es un trabajo de verdad, que tiene un reconocimiento de lo que cada uno hace, como educador, como artista, con lo que cada uno se identifica con lo que es. (Vanilson, entrevista concedida el 06/06/2021).

Además, para Vanilson, el acceso al financiamiento privado simboliza una especie de ascensión dentro del mercado cultural y de reconocimiento en el sector privado, a partir de la concesión, ejecución y rendición de cuentas del financiamiento público:

[…] Y la convocatoria tampoco es una cosa que sea rentable, así. La persona que cree que se puede ganar dinero, que se va a quedar… ¡Putz!, nosotros hacíamos tres convocatorias porque teníamos que hacerlo, si no, no alcanzaría, ¿no, hermano? No es un valor suficiente para que la persona haga lo que quiere de la vida, ¿sabes? Entonces vamos a hacer, a escribir dos proyectos para dos convocatorias. Fue esa idea, el VAI no aceptaba que un colectivo participara más de dos veces en la convocatoria. Entonces fue una cosa automática, de que el proyecto ganara visibilidad en otros lugares y otras personas dijeran: “¡Mira, qué bueno! Hay un proyecto tal que participó en tal y tal convocatoria” porque la convocatoria da visibilidad también, ¿no? ¡El proyecto gana visibilidad en la convocatoria también! Otras empresas también están viendo varios proyectos que están pasando porque ellos están queriendo captar, porque el [sector] social quiere hacer también, ¿no? Todas las empresas tienen el [sector] social, entonces… (Vanilson, entrevista concedida el 06/06/2021).

Otro desdoblamiento de las convocatorias es la competencia subyacente que se creó entre los diversos colectivos culturales. Durante mi iniciación científica, esta cuestión surgió en varias entrevistas y, en la maestría, reapareció, sobre todo entre mis antiguos interlocutores. En 2017, el colectivo Poesia na Brasa23, que nunca hizo uso de financiamientos privados, además de actividades puntuales en la Red Sesc, hacía la lectura de que “las convocatorias, además de amarrar a los colectivos a una gestión, los vuelven una especie de rehenes de los fondos públicos. Esto porque muchos colectivos pasaron a pautar sus actividades mediante su contemplación por alguna convocatoria” (SANTOS, 2019, p. 89). Sonia Bischain, de Poesia na Brasa, afirmó que el surgimiento del VAI fue importante para posibilitar la realización y el desarrollo de las actividades culturales en las periferias, pero también hizo una lectura crítica de ciertos aspectos de las convocatorias:

[…] Fue bueno porque nosotros logramos publicar varios libros, pero así, no es la cosa más importante. Nosotros también logramos publicar sin los fondos, ¿sabes? Es lógico que hubo casos en que las personas que agarraron los fondos ayudaron a saraus que no habían entrado en el programa. Porque no podían agarrar, porque solo se podía agarrar dos seguidos y el tercero ya no lo agarrabas… Pero nosotros logramos hacer también sin fondos. Hicimos con otras alianzas, de otras maneras… Entonces, yo creo así, que para mucha gente fue importante, pero llegó un momento en que solo se hacían cosas en algunos grupos si había fondos públicos. ¡Nosotros fuimos a muchas escuelas, a muchos lugares sin ganar nada! No había fondos. (Sonia Bischain, entrevista concedida el 04/07/2017).

En entrevista con Ana Fonseca, del Coletivo Perifatividade24, ella se refirió a la lógica que los cupos limitados de las convocatorias imponen a los colectivos culturales, la cual, aunque se pueda hacer una lectura de que tal condición incrementa el esfuerzo para escribir y ejecutar un proyecto, aun así no deja de estimular una lógica de competición entre los productores culturales de las periferias. Es decir, una vez más el acceso a las convocatorias y sus infraestructuras correlatas también están imbuidos de disputas en torno a la idea de mérito, limitando la acción de quien intenta actuar de otra manera, como se percibe en el siguiente testimonio:

[…] Ahora, un proyecto como el fomento [Ley de Fomento a la Cultura de las Periferias] de dos años de realización, proponer una cosa que tú haces siempre… […] yo, si fuera evaluadora, no lo aprobaría. Entonces, intento no ser esa cosa condicionada, pero intento pensar, porque si no pienso con la cabeza de quien está evaluando y escribo lo que quiero, ahí es un escrito mío, personal. Lo puedo guardar en el armario. ¡No un proyecto! Es feo pensar así. No me siento bien, pero la verdad es que es eso. Estás para disputar con tus hermanos esa migajita. ¡Pero es eso! Che, ¡estamos disputando con gente de Ipiranga y con gente de Heliópolis! Si nosotros mandáramos este año, ¡estaríamos disputando con Me Parió [Me Parió Revolução, un colectivo editorial de mujeres] que también tiene gente de Perifatividade! ¿Tú te imaginas si nosotros estuviéramos en ese mismo año compitiendo? ¿Qué incómodo? Lo que estoy diciendo es ¡cómo el sistema público nos pone en disputa! Y nosotros tenemos, si queremos participar –porque podemos también decir “no queremos participar de esto, andar disputando con mis hermanos”–. Pero si queremos participar, entonces mandemos algo que valga la pena ser mandado, ¿no? (Ana Fonseca, entrevista concedida el 11/09/2021).

Así, queda de manifiesto que la estructura en torno a las convocatorias públicas (editais) también germinó jerarquías, disputas, dependencia e incluso la desarticulación política de un cariz más radical y crítico entre colectivos periféricos, en lo que atañe a la participación popular más allá de las cuatro líneas de la democracia representativa. Además, pavimentó el camino de las iniciativas privadas en el ámbito de los financiamientos en la cultura de las periferias, e incluso interfiriendo en la gestión pública. De esta forma, teniendo en cuenta la desmovilización y el abandono de los cuadros de base del Partido dos Trabalhadores en los años 1990 (D’ANDREA, 2022; FELTRAN, 2007, 2011) – institucionalizándolos en aparatos técnicos y burócratas para la disputa electoral en el nivel federal, creando cuadros en las esferas de la “alta política” –, ¿cómo atribuir a las periferias el estatus de “liberales”? ¿Cómo señalar tal resultado sin tener en cuenta que las políticas culturales y de juventud – destinadas al entonces tercer mundo – fueron y continúan siendo gestadas en los grandes salones del Banco Mundial y del FMI (DAVIS, 2006; REYES, 2012; YÚDICE, 2006) para el control de esta población? Estas son políticas que tuvieron su inicio en el gobierno federal –de un presidente sociólogo y de una primera dama antropóloga–, conocido por su fuerte carácter privatizador, pero que el Partido dos Trabalhadores abrazó sin dudarlo y, más aún: amplió y convirtió a esas políticas en su marca registrada. Al fin y al cabo, ¿quién es y dónde está el (neo)liberal?

Identidad, representación, agenciamiento y supervivencia en la “Era de la Perifa”

La discusión sobre el mercado cultural y la producción cultural de las periferias ganó centralidad a partir de la Literatura Marginal/Periférica. Nascimento (2009) se refiere a este tema abordando diversas características de este mercado. La autora afirma que “[v]ale ponderar que la designación “literatura periférica” o “literatura de la periferia”, y sus correlatos, “escritor periférico” o “escritor de la periferia”, son sinónimos utilizados por los propios escritores aquí estudiados (sobre todo cuando se presentan en otros espacios sociales que no son la periferia)” (NASCIMENTO, 2009, p. 124). Así, la autora afirma que los significados de la adjetivación que acompañan a la literatura producida en las periferias funcionan también como una “marca” que “puede ser usada como diferencial en el mercado” (NASCIMENTO, ibíd.). Una marca que, ora añade un “valor de la ‘autenticidad’” (NASCIMENTO, ibíd.) para las obras de determinados autores, interesante para el mercado editorial; ora interesa a los autores, exteriorizando “cierto deseo de marginalidad en la elección del tema o del discurso asumido, de tal forma que la estigmatización pasa a ser el vector de las ventas de las obras y de la carrera literaria de residentes de la periferia y presidiarios” (NASCIMENTO, ibíd.).

Silva (2013) aborda los encuentros y desencuentros entre la literatura negra y la periférica, relacionándolas con su momento histórico y señalando, además de posibilidades, encuentros y confluencias, también divergencias, tensiones y paradojas. Uno de los testimonios del escritor Ferréz, contenido en la obra de Silva, resulta interesante para esta investigación, no solo para reiterar la ambigüedad presente –a la época– en la Literatura Marginal/Periférica en lo que atañe a su diversidad de intereses y de actores, sino también respecto a cómo tal identidad, o marca, como vimos arriba, es movilizada:

¡Los tipos tienen el sueño, mano! De que van a andar lado a lado con la elite de la Literatura, ¿viste? Hay mucho tipo que está en el gueto, que tiene el falso discurso, que cree que va a laburar con los tipos y que va a estar lado a lado ahí, y va a convivir y no quiere ser distinguido como Literatura Marginal, ¿sabes? Si agarras el libro de Malcolm [Malcolm X, Autobiografía], en Harlem, están los negros que son los negros mismos y se asumen, y están los negros que ya están más blancos, están tomando whisky con los tipos, que están hablando bajito, queriendo entrar en la sociedad, ¿me estás entendiendo? Entonces, hay mucho tipo de esos también en la periferia. Mucho tipo de la periferia que quiere ser elite. La mayoría quiere ser elite. Los tipos no quieren ser pobres. ¡Y yo tampoco quiero ser pobre! Yo no hice voto de pobreza, ¿viste? ¡Solo que hay diferencia! Hasta dónde vas a pagar el precio para ser de esa forma. (SILVA, 2013, pp. 634-635).

De esta forma, se desprende cómo la cuestión de la identidad es de vital importancia tanto en la literatura como en las demás producciones culturales realizadas en las periferias, más allá de su proyecto pedagógico, estético y político. Tal producción está intrínsecamente relacionada con la supervivencia material de sus agentes. Es donde la identidad periférica tal vez encuentra su mayor respaldo (lastro), el elo que une a sus sujetos desde siempre, que es la lucha por la supervivencia en medio de la precariedad estructurante.

Esta identidad que fue resemantizada en el aspecto artístico y subjetivo, y que también fue responsable de la “elevación de la autoestima de las periferias” (D’ANDREA, 2021, 2022; DE TOMMASI, 2013, 2014; NASCIMENTO, 2009, 2011, 2016; REYES, 2013; SILVA, 2013, 2016; TENNINA, 2017), aún sigue estrictamente marcada por la precarización de las condiciones de los agentes culturales –a excepción de aquellos que pasaron por el ojo de la aguja del mercado cultural, consiguiendo alguna estabilidad–, como también de las periferias. Retomando el concepto de agenciamiento (agência), movilizado para referirse a las posibilidades de acción de estos sujetos marginalizados/subalternizados frente a la avalancha de desigualdades estructurales que pesan sobre ellos, cabe reflexionar sobre los límites de este concepto para, quién sabe, profundizar el debate y cualificar la discusión en un terreno más concreto y práctico.

En el primer capítulo de La constitución de la sociedad, Anthony Giddens presenta los fundamentos de su teoría de la estructuración, buscando superar dicotomías clásicas de la teoría social, sobre todo aquella que opone acción y estructura. El autor argumenta que las estructuras sociales no existen como entidades exteriores, estáticas o coercitivas que determinan el comportamiento humano, sino como conjuntos de reglas y recursos que solo se actualizan por medio de la práctica social, siendo continuamente producidas y reproducidas por los agentes. La acción, por su parte, es concebida como un proceso reflexivo, en el cual los individuos monitorean sus conductas y las circunstancias de su actuación, movilizando conocimientos prácticos que permiten orientar y ajustar sus rutinas.

Esta perspectiva lleva a Giddens a formular la noción de dualidad de la estructura, según la cual estructura y agenciamiento no son polos opuestos, sino dimensiones simultáneas e interdependientes de la vida social: las estructuras moldean la acción, al mismo tiempo que son moldeadas por ella. En ese capítulo, Giddens también enfatiza el carácter situado y temporal de la acción, el papel de las rutinas en el mantenimiento del orden social y la inseparabilidad entre poder y agenciamiento, una vez que actuar implica siempre la capacidad de producir efectos en el mundo. Con esto, el sociólogo establece las bases conceptuales para comprender la sociedad como un proceso dinámico y recursivo, en el cual sujetos y estructuras se constituyen mutuamente.

El concepto de agenciamiento en Sherry Ortner mantiene un diálogo directo con la teoría de la estructuración de Anthony Giddens, pero añade dimensiones analíticas que complejizan la relación entre acción, poder y contexto social. En Giddens, el agenciamiento es entendido como la capacidad de los actores de “marcar la diferencia” en el curso de los acontecimientos, siempre articulada al poder como posibilidad de mobilizar recursos, y situada en la dinámica de la “dualidad de la estructura”, por la cual acción y estructura se coproducen en el tiempo-espacio (GIDDENS, 2009). Ortner adopta este fundamento, pero desplaza el foco hacia un abordaje etnográfico del agenciamiento, enfatizando que los sujetos actúan orientados por proyectos culturalmente significativos e insertos en relaciones concretas de desigualdad (ORTNER, 2006). 

Así, mientras Giddens desarrolla una ontología general de la acción, Ortner politiza el concepto al tratar el agenciamiento no solo como competencia práctica, sino como compromiso en proyectos marcados por disputas de poder, dominación, resistencia y modos sutiles de inconformidad. De este modo, la antropóloga amplía el alcance giddensiano al incorporar dimensiones intencionales, morales y afectivas de la acción, evidenciando que el agenciamiento se manifiesta tanto en estrategias transformadoras como en prácticas cotidianas de supervivencia y contestación, especialmente entre sujetos subalternizados.

La discusión sobre agenciamiento en Anthony Giddens y Sherry Ortner es ampliada a partir de la reflexión propuesta por Jean y John Comaroff acerca de la relación entre etnografía e imaginación histórica. Si, en Giddens, el agenciamiento constituye la capacidad de los actores de intervenir en los flujos del mundo social por medio de prácticas situadas en la dualidad de la estructura (GIDDENS, 2009), y si, en Ortner, ese agenciamiento es refinado como compromiso en proyectos culturalmente significativos, atravesados por relaciones de poder, desigualdades y formas múltiples de resistencia (ORTNER, 2006), los antropólogos John y Jean Comaroff añaden que tales prácticas solo pueden ser plenamente comprendidas cuando están inscritas en una temporalidad histórica densa, donde pasado, presente y futuro se imbrican en la constitución del sujeto y de sus posibilidades de acción. 

Para los autores, la etnografía no puede separar agenciamiento de historia, pues los actores cotidianos movilizan repertorios simbólicos, memorias colectivas y expectativas de futuro que configuran el campo mismo de la acción (COMAROFF & COMAROFF, 2010). Así, la articulación entre las reflexiones de estos autores revela que el agenciamiento debe ser entendido no solo como competencia práctica (Giddens) o como realización de proyectos situados dentro de relaciones de poder (Ortner), sino también como proceso histórico-constitutivo, en el que sujetos socialmente localizados elaboran, imaginan y performan sus vidas a partir de trayectorias históricas y regímenes de sentido que los preceden y los sobrepasan.

En ese sentido, la imaginación histórica propuesta por los Comaroff refuerza que el agenciamiento es siempre una práctica temporalizada, constituida por la fricción entre estructuras, proyectos e historias vividas. Asimismo, de acuerdo con los Comaroff (2010), “muchos antropólogos han desconfiado de ontologías que confieren primacía a los individuos en relación con los contextos. Esto porque se apoyan manifiestamente en presupuestos occidentales; entre ellos, el de que los seres humanos pueden triunfar sobre sus contextos basándose únicamente en la fuerza de voluntad, el de que la economía, la cultura y la sociedad son el producto agregado de la acción y de la intención individuales” (COMAROFF & COMAROFF, 2010, p. 12). Aún sobre el tema, los autores afirman:

Pues, a pesar de cuán abiertos sean, los sistemas de significado tienen sus determinaciones propias. No solo se doblan a la voluntad de quien desea conocerlos y actuar sobre ellos; al contrario, tienen un papel significativo en la formación de la subjetividad. En otras palabras, la “motivación” de la práctica social siempre existe en dos niveles distintos, aunque relacionados: en primer lugar, las necesidades y deseos (culturalmente configurados) de los seres humanos; en segundo lugar, la pulsación de las fuerzas colectivas que, adquiriendo poder por caminos complejos, operan a través de los primeros. Esta distinción informa el análisis de todos los procesos históricos, pero su significado fue resaltado por el giro humanista en las ciencias sociales, que suscitó llamamientos en favor de una mayor preocupación por el agenciamiento. Énfasis que adquiere especial visibilidad cuando examinamos movimientos de época como el colonialismo europeo, en el cual la acción “heroica”, resolutiva, fue tema central y hasta fuerza propulsora. Desde nuestro punto de vista, sin embargo, ese impulso no es suficiente para dar cuenta de la determinación de los procesos relacionados –o incluso para contar mucho de la historia–. De ello es testimonio, una vez más, la misión imperial, iniciativa motivada por fuerzas contradictorias cuyas consecuencias difirieron radicalmente de los motivos declarados por quienes se involucraron en ella (COMAROFF & COMAROFF, 2010, p. 44).

A partir de esta discusión, destaco que el afán de la celebración excesiva y a veces acrítica en torno a las posibilidades derivadas del reconocimiento y de la representación de las identidades subalternizadas –principalmente por el mercado cultural– no significa exactamente que cuestiones irresolutas estén próximas a ser puestas en entredicho, o menos aún que caminen hacia un desenlace mínimamente digno. A lo largo de este trabajo, los testimonios de mis interlocutores, tal como otros ejemplos citados, evidencian esa complejidad etnográfica y analítica en cuestiones que se remontan a nuestro pasado colonial y permanecen como una constante en el cotidiano, ataviadas con ropajes actuales. El acceso a las políticas públicas y privadas en el contexto de la producción cultural de las periferias, cuyo aspecto transformador es enorme, se ha limitado, muchas veces, a ser un producto exótico más en el mercado –con fecha de caducidad– cuando no, una palmadita en la cabeza, mientras la justicia de hecho no llega. En esa línea, Tennina (2017) afirma:

Las gestiones del capital periférico por parte de los organismos estatales y gubernamentales, como podemos deducir por lo dicho hasta aquí, aunque hayan posibilitado ganancias indiscutibles para los propios artistas periféricos, terminaron funcionando también como programas preventivos que parecen sustituir una política de integración a largo plazo. Más que de integración, por lo tanto, se trata de políticas de inserción, lo que se traduce, conforme explica João Camillo Penna (2009, p. 173), en una medida que “tendría un carácter transitorio […], un correctivo de emergencia localizado, como sustituto de políticas más generales, pero, por definición, más caras, y que por ahora hasta nueva orden el Estado se encuentra incapacitado de ofrecer”. La cultura, en ese sentido, asume un papel excesivo en las políticas públicas, ya que asume la condición de funcionar como solución social a gran escala (TENNINA, 2017, p. 172).

Tommasi (2013, 2014a, 2014b, 2016a, 2016b, 2018), Tommasi y Velazco (2013, 2016), Tommasi y Corrochano (2020), así como Tommasi y Silva (2020) señalan cómo, a partir de la cultura de periferia, toda una infraestructura subjetiva y material –que articula términos como representatividad, empoderamiento, protagonismo y autonomía (todos ellos divulgados como subyacentes al existir periférico)–, en conjunto con la capacitación de individuos, la captación de recursos y el aprovechamiento de oportunidades ofrecidas por el mercado e instituciones privadas, mediadas por el poder público, es movilizada con el discurso de “combate a la pobreza”. Además de la primacía de programas y financiamientos privados, en su gran mayoría extranjeros, autores como Tommasi señalan el origen de términos como “empoderamiento”, que son típicos del lenguaje empresarial, pero que fueron naturalizados en la retórica de las poblaciones subalternizadas –como la periférica– e incluso en el lenguaje progresista. Los análisis de Tommasi van al encuentro del artículo de Arantes (2004), quien hace un análisis crítico de las acciones del tercer sector, discurriendo sobre su penetración en el Estado y en la arena pública, en sus sutilezas semánticas y subjetivas, como se desprende a continuación:

De ahí también la permanente disputa acerca del sentido de las palabras, en torno al cual se concentra buena parte de la lucha política. No es para menos: de un momento a otro “derecho” se convirtió en privilegio, además en detrimento de los “excluidos”; sujeto de derechos, en usuario de servicios; destrucción social se volvió sinónimo progresista de “reforma”; previsión social, un malentendido en un país de imprevisores crónicos; sindicalismo, crispación corporativista; “ciudadanía”, mera participación en una comunidad cualquiera; “solidaridad”, filantropía, por supuesto; bien público, intereses agregados de grupos sociales; desempleado, individuo de baja empleabilidad; “alianza”, siempre que la iniciativa privada entra con la iniciativa y el poder público con los fondos, etc. De hecho, un “asombroso deslizamiento semántico” […]. Por ahora reparemos –con perdón por la insistencia– en que ese mundo realmente patas arriba no obstante es escenario de batallas de interpretación justamente porque los contendientes están empleando las mismas palabras […] Quién no ha oído esa voz diaria de la razón: ustedes no están entendiendo nada cuando hablamos de “derechos”, “reformas”, etc., fuimos mal comprendidos, lo cual es natural, dada la complejidad del nuevo orden mundial, por eso vamos, didácticamente, a explicar todo de nuevo, hasta que ustedes comprendan lo que de cualquier forma les va a suceder, quieran o no. En estas condiciones, ¿cómo orientar el pensamiento y la voluntad política en dirección a una “articulación democrática entre poder y derecho”, si en el otro campo también se utiliza la argamasa de los “derechos de la ciudadanía” para cimentar la alianza entre poder y dinero? (ARANTES, 2004, pp. 178-179).

En el análisis de los dos autores, la readecuación tanto semántica como subjetiva que incide enormemente en la materialidad –y que también forma parte del respaldo (lastro) del agenciamiento, como vimos anteriormente– solo puede ocurrir a partir del Estado. Es este el que se encarga de la “organización y de la articulación de las masas” para las acciones ciudadanas de las empresas y demás agentes filantrópicos preocupados por “lo social”; el que va a organizar los fondos públicos para las iniciativas privadas en nombre de la ciudadanía y de la gestión de lo social.

El Estado ora imputa a la producción cultural de las periferias papeles que este debería cumplir (TENNINA, 2017), ora capacita a los jóvenes productores culturales de las periferias, también para gestionar la pobreza (DE TOMMASI & VELAZCO, 2016) y los lanza a la precarización (DE TOMMASI, 2016a; 2016b). O bien, involucra a estos productores culturales en un campo resbaladizo de la semántica neoliberal, al importar e insertar en el cotidiano conceptos empresariales aplicados a la arena pública y al self (ARANTES, 2004; DE TOMMASI & VELAZCO, 2013, 2016). Loïc Wacquant reflexiona sobre aquello que diferencia el neoliberalismo del liberalismo y cómo la “antropología del neoliberalismo se polarizó entre un modelo económico hegemónico, anclado por variantes del dominio de mercado, y un abordaje rebelde, alimentado por derivaciones de la noción foucaultiana de gubernamentalidad” (WACQUANT, 2012, p. 505). Según el autor, “estas dos concepciones convergen para oscurecer lo que es ‘neo’ en el neoliberalismo, a saber, la reingeniería y la reestructuración del Estado como principal agencia que conforma activamente las subjetividades, las relaciones sociales y las representaciones colectivas apropiadas para hacer real y relevante la ficción de los mercados” (WACQUANT, 2012, p. 507).

Es posible entender entonces que el Estado no fue corroído por el neoliberalismo, sino que el Estado es parte activa del proyecto neoliberal. A partir de un diálogo con la obra de Bourdieu (1994), Wacquant reitera que la formación del Estado contemporáneo está atravesada por dos batallas internas, correspondientes a las tensiones y disputas existentes en el cuerpo social: una es la batalla vertical, entre opresores y oprimidos, que antagoniza al alto escalafón del Estado – compuesto por entusiastas de las políticas neoliberales y de la mercantilización de la vida – con el bajo escalafón estatal, el ejecutivo – estos, que abogan por la preservación de la burocracia pública –; la otra es la batalla horizontal, que involucra la disputa entre dos variantes de capital que compiten por la hegemonía interna, a saber, la económica y la cultural. La primera, representando la mano derecha del Estado, se responsabiliza de las restricciones fiscales y la imposición del mercado; la segunda, defiende a las minorías desposeídas de capital económico y cultural, simbolizando el ala social, la mano izquierda del Estado. 

El autor entonces afirma que “[u]sando este esquema, se puede hacer un diagrama del neoliberalismo como el vaivén sistemático de las prioridades y acciones estatales de la mano izquierda a la mano derecha, esto es, del polo protector (femenino y colectivizante) al polo disciplinador (masculino e individualizante) del campo burocrático” (WACQUANT, 2012, p. 512). Y es de ese vaivén sistemático de donde deriva la predisposición derechizante del Estado, según Wacquant (2012). Para el autor, esto ocurre sistemáticamente de dos maneras complementarias que, a mi entender, revelan el carácter político e ideológico del Estado:

(i) la transferencia de recursos, programas y poblaciones del ala social al ala penal del Estado (como ocurre cuando pacientes enfermos son “desinstitucionalizados” con el cierre de hospitales y “reinstitucionalizados” en cárceles y prisiones después de transitar como personas sin techo); (ii) la colonización de la asistencia social, de la salud, de la educación, de la vivienda de bajo costo, de los servicios de asistencia a la infancia, etc., por técnicas panópticas y disciplinares y por los tropos de la mano derecha (como ocurre cuando los hospitales privilegian las preocupaciones presupuestarias sobre las médicas en su organización interna y cuando las escuelas colocan la reducción de la deserción juvenil y de la violencia en el aula por delante de la pedagogía, contratando guardias de seguridad en lugar de psicólogos). Esta doble inclinación derechizante de la estructura y de las políticas del Estado no es, enfáticamente, producto de algún imperativo sistémico misterioso o de necesidad funcional irresistible; se trata del resultado (estructuralmente condicionado, pero históricamente contingente) de luchas materiales y simbólicas, libradas dentro y fuera del campo burocrático, sobre las responsabilidades y modalidades de operación de la autoridad pública (WACQUANT, 2012, p. 512).

La formulación de Frantz Fanon según la cual “el colonizado quiere ser colonizador” (FANON, 2022) ofrece una clave para comprender cómo prácticas culturales periféricas, hoy insertas en circuitos de fomento público y privado, pueden ser capturadas por racionalidades neoliberales que reactualizan, bajo nuevas formas, la verticalidad colonial. En las convocatorias públicas (editais) dirigidas a las periferias de São Paulo —especialmente aquellas estructuradas por criterios de innovación, emprendimiento cultural, impacto medible y autogestión— se produce un sujeto periférico ideal que debe convertir sus experiencias de desigualdad en proyectos competitivos y alineados con métricas de eficiencia. 

Tal figura corresponde a lo que Loïc Wacquant denomina como “neoliberalismo realmente existente”, caracterizado por la retracción del Estado social, la expansión de las tecnologías penales y la moralización de la pobreza vía responsabilización individual. Al desplazar hacia artistas y colectivos periféricos la tarea de gestionar su propia precariedad, estas convocatorias promueven un régimen de subjetivación que estimula la internalización de los valores del neoliberalismo, convirtiendo la vulnerabilidad en recurso y la precariedad en capital. En ese sentido, el movimiento descrito por Fanon reaparece en la forma contemporánea del artista periférico emprendedor, capaz de mimetizar códigos institucionales.

Consideraciones finales

El análisis de las políticas culturales dirigidas a las periferias urbanas de São Paulo evidencia cómo las convocatorias públicas (editais) estructuradas por la gramática del emprendimiento, la innovación y la medición de impacto producen sujetos moldeados por racionalidades neoliberales que reactualizan desigualdades históricas. A partir de la clave propuesta por Fanon —según la cual el colonizado tiende a imaginarse en el lugar del colonizador— resulta posible comprender cómo artistas y colectivos periféricos son interpelados a convertir sus experiencias de precariedad en proyectos competitivos y responsivos a métricas de eficiencia, internalizando patrones institucionales que reiteran la verticalidad colonial bajo una forma contemporánea.

Al integrar la discusión antropológica sobre el agenciamiento (agência), especialmente en Sherry Ortner y Anthony Giddens, podemos percibir que esa interpelación no se restringe a un proceso de sumisión, sino que opera mediante la constitución de campos de acción estructurados por expectativas, incentivos y tecnologías de gestión. En Ortner, el agenciamiento aparece simultáneamente como acción situada y como orientación proyectiva, siempre inscrita en regímenes de poder que moldean la imaginación y el horizonte de posibilidades. Por su parte, la noción giddensiana de agenciamiento, articulada a la dualidad de la estructura, muestra cómo los individuos producen y reproducen las condiciones sociales que los limitan, revelando que la “autonomía” de los agentes periféricos está, en gran parte, configurada por los propios dispositivos que afirman emanciparlos. Así, la figura del artista periférico emprendedor emerge como resultado de un proceso de conducción de la conducta, en el cual la libertad es continuamente moldeada por la gubernamentalidad neoliberal.

De esta forma, aunque las convocatorias culturales amplíen el acceso a recursos antes inaccesibles, operan también como dispositivos de gubernamentalidad que traducen desigualdades históricas en competencias individualizadas y meritocráticas. El agenciamiento, lejos de representar libertad plena, se manifiesta como espacio de negociación: un campo tensionado entre reproducción, adaptación e invención, en el cual los artistas periféricos tanto mimetizan códigos institucionales como producen fisuras y alternativas. Así, comprender las convocatorias como arenas de disputa —y no como meros instrumentos técnicos de fomento— permite reconocer las ambivalencias y las posibilidades que emergen de la acción periférica, destacando cómo el imaginario colonial persiste, pero también cómo puede ser desafiado.

La discusión aquí desarrollada sugiere, por lo tanto, que políticas culturales más democráticas exigen no solo ampliar el acceso a los recursos, sino rediseñar las estructuras de evaluación, participación y decisión de forma que no reproduzcan la lógica neoliberal de responsabilización individual. Solo así será posible promover formas de creación que no solo sobrevivan, sino que desestabilicen el régimen de valor que convierte la precariedad en capital y la desigualdad en mérito — y que, por último, permitan imaginar futuros que escapen a la reincorporación permanente del colonialismo bajo nuevos ropajes.

Discurrí sobre el medio en el que la producción cultural de las periferias se encuentra, reflexionando sobre sus paradojas, contextos, dinámicas, modos y posibilidades de acción. Con el fin de aportar una perspectiva más amplia, eché mano de eventos y testimonios que recogí en el campo, así como de situaciones que acompañé —aunque virtualmente algunas veces— relacionadas con el hacer cultural, político e ideológico en las periferias de São Paulo. Entre esencializaciones positivadas, celebradas en diversos trabajos académicos y en diversas alianzas públicas y privadas, mercadológicas de antemano, que evidencian el progreso, el poder de agenciamiento y transformación de las periferias, como si la justicia social estuviese al servicio de un proyecto, de una presentación, de un financiamiento a distancia; y esencializaciones negativas, que una vez más castigan a los pobres, a los marginales y a toda clase de condenados de la tierra, como los únicos y principales responsables de su miseria, opté por un análisis más realista y menos disimulado de esto que, en tono de broma, llamé “giro neoliberal” en las periferias. Aunque este análisis pueda encontrar un tono pesimista en algunas lecturas, afirmo que se trata de un caso de “pesimismo de la inteligencia, optimismo de la voluntad” (GRAMSCI, 1920, sin paginación). Lejos de presentar un análisis definitivo para comprender todas las matices del tema, espero haber contribuido al debate.

Referencias

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Notas

  1. Este artículo es una traducción libre al español del trabajo publicado originalmente en inglés: SANTOS, Silvio Rogerio dos. On cultural paradoxes: culture, agency, identity, representation, and the survival of peripheral subjects in the “Era of the Periphery”. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, v. 21, e21901, 2024. Disponible en: https://www.scielo.br/j/vb/a/PBXx4kQGRpXqKwFwf3hsvDG/?lang=en . ↩︎
  2. Aquí, la referencia a la “Era de la Perifa” remite al análisis realizado por Reyes (2012), quien veía con preocupación el afán académico y del mercado cultural por celebrar las identidades, representatividades y potencias de las periferias en toda América Latina, así como la cooptación de estas por el status quo, mientras viejos y persistentes problemas aún siguen a la orden del día. Para más información, véase Reyes (2012). ↩︎
  3. “Nóis por nóis” [Nosotros por nosotros] es una expresión que se popularizó en las periferias de São Paulo a finales de la década de 1990. Parte del vocabulario del rap y del hip-hop nacional, se convirtió en una consigna dentro de la escena cultural periférica paulistana, presente en poemas, poesías, crónicas y novelas, así como en canciones y demás producciones de dicho circuito. En términos generales, significa que solo la unión entre nosotros (el pueblo de las periferias) puede transformar nuestra realidad, dado que nadie más lo ha hecho ni es capaz de hacerlo, haciendo una alusión directa al abandono del Estado y de las demás instancias de poder, además de apelar a la autoorganización. Por su parte, la frase “Nóis é ponte que atravessa qualquer rio” [Nosotros somos puente que cruza cualquier río], del poeta Marco Pezão, expresa la unidad y la fuerza colectiva de una comunidad —sobre todo la periférica— cuando se une para enfrentar desafíos. La imagen del puente destaca el poder del colectivo (“nóis”) como aquello que permite atravesar y superar los “ríos”, es decir, los obstáculos sociales, económicos y culturales. ↩︎
  4. “El Programa para la Valorización de Iniciativas Culturales – VAI fue creado por la Ley 13.540 y reglamentado por el Decreto 43.823/2003, con la finalidad de apoyar financieramente, mediante subsidios, actividades artístico-culturales, principalmente de jóvenes de bajos ingresos y de regiones del Municipio desprovistas de recursos y equipamientos culturales.” Para más información, véase: https://programavai.blogspot.com/p/sobre-o-vai.html. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  5. “Dória traslada la Virada Cultural a Interlagos y dice que SP es una ‘basura viva’”. Portal G1 (05/12/2016). Disponible en: https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/doria-transfere-virada-cultural-para-interlagos-e-diz-que-sp-e-um-lixo-vivo.ghtml. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  6. “‘Vou quebrar a sua cara’, diz secretário da cultura de Dória a ativista”. Estadão (30/05/2017): https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,vou-quebrar-a-sua-cara-diz-secretario-da-cultura-de-doria-a-ativista,70001818838. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  7. Christian Lohbauer es politólogo y profesor de la USP, ex-candidato a la vicepresidencia por el Partido Novo (2018), del cual fue uno de los fundadores hasta su desafiliación en 2021. Durante el gobierno de Bolsonaro, fue defensor de la política ambiental de dicho gobierno. Actualmente, el politólogo es presidente de CropLife Brasil, entidad que representa a las empresas de agrotóxicos y transgénicos en Brasil. Para más información, véase: https://istoe.com.br/queremos-mostrar-para-greta-que-nao-somos-do-mal/. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  8. “¿Por qué todos los videos en apoyo a Sturm son iguales?”. Agenda Preta (07/06/2017). Para más información, véase: https://www.facebook.com/share/188fqyh73J//. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  9. La noticia citada se encuentra actualmente no disponible en su dirección original. Se realizaron intentos de recuperación a través de herramientas de archivado digital (Wayback Machine), sin éxito. Sin embargo, el registro de la publicación sigue siendo parcialmente verificable mediante publicaciones remanentes en redes sociales (Facebook), donde aún es posible visualizar la entradilla y el título de la noticia, aunque el enlace externo al contenido íntegro haya sido desactivado. ↩︎
  10. “Grafitero es detenido en SP tras borrar pintura gris sobre su obra”. Estadão (27/01/2017). Disponible en: https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,grafiteiro-e-detido-em-sp-apos-apagar-tinta-sobre-sua-obra,70001644099. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  11. El Colectivo Imargem fue fundado en 2006 por Mauro Neri y otros grafiteros de la región de Grajaú, en el extremo sur de São Paulo. Actualmente, el colectivo está liderado por el hermano de Mauro, Wellington Neri, más conocido como Tim. La principal actividad del colectivo es la realización de obras vinculadas a las artes plásticas, como el graffiti, y la promoción de debates y talleres sobre ecología y ocupación de los espacios públicos desde el territorio. Para más información, véase Santos (2024). ↩︎
  12. De acuerdo con la nota en la página de Itaú Cultural, “[e]sta frase, [Ver la ciudad] que puede leerse en muchos muros de la ciudad de São Paulo, siempre acompañada de una casa amarilla con tejado marrón, es la invitación que el artista visual Mauro Neri nos hace para no dejar de percibir la belleza, la crueldad, la resistencia y las posibilidades de nuestra ciudad”. Para más información, véase: https://www.itaucultural.org.br/ver-a-cidade-e-suas-nuances-entrevista-com-mauro-neri. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  13. “Tras su cruzada contra los grafiteros, la Alcaldía de São Paulo lanza el programa Museo de Arte Callejero”. O Globo (10/03/2017). Disponible en: https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/apos-cruzada-contra-pichadores-prefeitura-de-sao-paulo-lanca-programa-museu-de-arte-de-rua-21043505. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  14. “Grajaú: un nuevo centro efervescente de artistas”. Veja (22/06/2018). Disponible en: https://vejasp.abril.com.br/cidades/grajau-artistas-nova-geracao/. Acceso el: 22 nov. 2025. ↩︎
  15. Aunque la noción de sistema a veces pueda sonar abstracta, aquí puede entenderse como la marginalización, la negligencia social, la falta de acceso a políticas públicas, la violencia policial, el exterminio de la población negra y periférica y las demás problemáticas que aún impregnan la sociabilidad en las periferias de São Paulo, como puede percibirse en los discursos de varios de estos agentes culturales, tal como se describen tanto en Nascimento (2009) como en el trabajo de Medeiros et al. (2016). ↩︎
  16. “Ciudadanía cultural” es un término creado por la filósofa Marilena Chauí en el año 2000 y difundido a través del trabajo social de las ONG y de sectores progresistas de la gestión pública a partir de entonces, tal como se discute en su libro Cidadania Cultural: O Direito à Cultura (2006). ↩︎
  17. “A periferia liberal e os riscos da disputa narrativa “dos pobres””. Carta Capital (20/04/2017): https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-periferia-liberal-e-os-riscos-da-disputa-narrativa-201cdos-pobres201d/. Acesso em: 02/02/2024. ↩︎
  18. “Las izquierdas perdieron votos en la periferia cuando dejaron de ser izquierdas”, dice un investigador. Agência Pública (17/04/2017). Disponible en: https://apublica.org/2017/04/as-esquerdas-perderam-votos-na-periferia-quando-deixaram-de-ser-esquerdas-diz-pesquisador/. Acceso el: 02 feb. 2024. ↩︎
  19. “Un superviviente del infierno”. Le Monde Diplomatique Brasil (08/01/2018). Disponible en: https://diplomatique.org.br/um-sobrevivente-do-inferno/. Acceso el: 02 feb. 2024. ↩︎
  20. La Cooperifa es un colectivo cultural ideado por Sérgio Vaz y fundado en 2001 en la Zona Sur de São Paulo. Tras varios cambios, el encuentro poético (sarau) se ubica actualmente en el “Bar do Zé Batidão”, en el barrio de Chácara Santana, distrito de Jardim São Luís —en la Zona Sur de la capital paulista y no en Taboão da Serra— (Nascimento, 2011). A principios de 2025, el colectivo anunció en su cuenta de Instagram una pausa en sus actividades por tiempo indeterminado. ↩︎
  21. En los testimonios que me fueron brindados y que integran esta parte del artículo, los testimoniantes acordaron utilizar sus nombres reales. ↩︎
  22. Fruto de las luchas populares en la Ilha do Bororé, la Casa Ecoativa fue fundada oficialmente en el año 1999. Durante esa época, ampliamente articulada con los movimientos sociales y culturales locales, promovió tanto acciones culturales como ecológicas y sociales en su entorno. Tras un hiato entre 2006 y 2013, reanudó sus actividades bajo otra estructura organizativa, enfocándose en la educación artística, el turismo de base comunitaria y la ecología. Para más información, véase Santos (2024). ↩︎
  23. El Sarau da Brasa, como es conocido popularmente, inició sus actividades en 2008 en Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. El colectivo surgió como respuesta a las inquietudes de un grupo de jóvenes amigos de la infancia —quienes ya estaban involucrados de diversas maneras con la cultura en la región— que, al acceder a la universidad, tuvieron la idea de regresar a su barrio de origen para construir un colectivo cultural. De este modo, influenciados por el ejemplo de grupos como la Cooperifa y el Sarau do Binho, así como por escritores como Sérgio Vaz y Ferréz, nació el colectivo cultural Poesia na Brasa. Para más información, véanse Santos (2019, 2024). ↩︎
  24. Muy influenciado por el rap y el hip hop, el colectivo Perifatividade surgió en 2010 en el Fundão do Ipiranga, en la Zona Sur de São Paulo. Con la literatura como eje de acción, el colectivo desarrolla proyectos en el ámbito de la educación y los derechos humanos, haciendo uso de equipamientos públicos locales como plazas, escuelas y telecentros, entre otros. Para más información, véanse Santos (2019, 2024). ↩︎

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Dos paradoxos culturais: cultura, agência, identidade, representatividade e sobrevivência dos sujeitos periféricos na “Era da Periferia”

Introdução1

Entre os anos de 2016 e 2024, acompanhei fatos relacionados a diferentes atores da produção cultural das periferias, incluindo acontecimentos que meus interlocutores privilegiados à época experienciaram. Relacionei-os ao meu percurso de pesquisa — três iniciações científicas (2016–2018), uma monografia (2019), um mestrado (2020–2024), que hoje desaguam em um doutorado em andamento — e às perguntas que se adensaram com o tempo, especialmente diante dos rearranjos, contrastes e novos rumos do chamado projeto pedagógico, estético e político (NASCIMENTO, 2009) que emergiu das produções culturais das periferias de São Paulo. Os casos acompanhados chamaram atenção por exporem tensões profundas: disputas em torno dos financiamentos, fraturas internas antes invisibilizadas, heterogeneidade de interesses, discursos e modos de atuação, além do crescente distanciamento entre a multiplicidade concreta dos agentes e a ideia de uma suposta unidade periférica — unidade, essa, cada vez mais capturada pelo imaginário social pela popularização do adjetivo “periferia” como marca cultural, intelectual e comercial. Um fenômeno que Reyes (2012), com precisão crítica, descreveu como a “era da periferia”2.

Nesse artigo, reflito sobre tais questões à luz de minha dissertação (SANTOS, 2024), articulando-as aos depoimentos recolhidos ao longo desses anos e às formulações desenvolvidas em texto anterior (SANTOS, 2022), no qual discuti a relação entre a produção cultural periférica e aquilo que muitos chamam de “sistema”. O que me interessa, mais do que recompor cronologias, é explorar o modo como esses acontecimentos — aparentemente dispersos — iluminam disputas sobre cultura, agência, identidade, representatividade e sobrevivência no contexto da “Era da Perifa” – nomenclatura que pego emprestada de Reyes (2012). Para situar o debate, divido o artigo em cinco partes: primeiro, apresento cinco situações vividas no cotidiano da produção cultural das periferias; em seguida, desenvolvo uma discussão sobre paradoxos, ambiguidades, antagonismos e disputas simbólicas no fazer cultural das periferias, onde coloco o termo cultura sob suspeição, fazendo uma leitura crítica da mesma; na sequência discuto sobre a relação entre a política cultural dos governos do Partido dos Trabalhadores, as periferias e o neoliberalismo; na quarta parte faço alguns apontamentos sobre identidade, representação, agência, estrutura e sobrevivência no contexto das periferias; e por fim termino com uma conclusão, onde faço uma síntese dos principais temas discutidos no texto.

Mas antes de qualquer delimitação formal, é preciso reconhecer que certas experiências precedem e excedem o campo. Há percursos que não escolhemos inteiramente, mas que nos atravessam de tal modo que acabam por assombrar — e iluminar — nossas perguntas de pesquisa. Não relato aqui uma origem para legitimá-la como método; relato apenas o incômodo de ver, ao longo da formação, certas experiências insistirem em retornar como espectros teóricos. Cresci no Grajaú – extremo sul de São Paulo –, na dobra entre a precariedade e o desejo: venho de uma família nordestina e interracial que, com esforço silencioso, mantinha acesa a fé na escola; uma circulação rarefeita pela cultura, até que meu irmão abriu frestas por onde entraram música, política, literatura. Depois vieram o punk, o anarquismo, as reuniões de esquina, as rodas de rap — mundos que ensinavam a pensar antes de qualquer manual acadêmico de metodologia. Esses espaços não me deram apenas uma identidade, mas uma gramática: uma forma de nomear violência, Estado, desigualdade, raça e possibilidades de futuro.

Quando cheguei à universidade, percebi que esse repertório não era neutro: ele tensionava expectativas sobre quem eu “deveria” ser, de onde eu “parecia” vir e que tipo de leitura me caberia. A cada semestre na academia, reaparecia o gesto curioso — às vezes solidário, às vezes duvidoso — de perguntar se eu “era mesmo da periferia”. Com o tempo, entendi que tal pergunta não dizia respeito a mim, mas às disputas simbólicas que rondam a produção do conhecimento: quem pode falar, quem deve provar, quem precisa explicar-se. Ao revisitar essas camadas agora, não busco consagrar uma posição de fala, mas reconhecer como esse campo minado de expectativas e projeções acabou se tornando matéria etnográfica, parte do problema analítico, e não apenas da minha biografia.

O que estou compondo aqui, portanto, não é memória, mas método: essa travessia se converteu em lente, em suspeita, em disciplina do olhar. É ela que me aproxima das letras do punk e do rap como arquivos afetivos e políticos da cidade; é ela que aguça a atenção para as zonas de fricção entre prática e discurso, entre desejo e estrutura. Se minha escrita tem um ponto de partida, ele não é um lugar, mas uma inquietação persistente — a de que os mundos que me formaram continuam devolvendo perguntas que a teoria, por si só, não consegue silenciar.

Cinco cenas sobre a produção cultural das periferias

No que concerne às tensões apresentadas aqui, considero que estas devem ser analisadas, visando a importância das disputas que compõem o contexto deste artigo (sejam estas políticas ou semânticas – frequentemente ambas ao mesmo tempo). Dito isto, introduzirei fatos a mim relatados por meus interlocutores e outros que acompanhei – seja a discussão pública em jornais e redes sociais, seja presencialmente em campo. 

  1. Cena um: “Nóis por nóis”?

A primeira dessas situações etnográficas, relatada a mim informalmente por um interlocutor, dizia respeito ao desentendimento entre diversos coletivos sobre quem se apresentaria no palco central da Virada Cultural de São Paulo em 2014. Segundo esse interlocutor, a questão central se deu em torno da enorme quantidade de coletivos periféricos e do espaço limitado do citado evento. Numa das reuniões para se decidir a questão, foi apresentada a seguinte proposta de resolução: os coletivos que já tivessem programação com a rede SESC São Paulo não se apresentariam nos palcos centrais da Virada Cultural e vice-versa. O imbróglio aumentou quando “um pessoal das antigas” reivindicou o direito de estar em ambos os espaços, alegando que haviam sido eles que desbravaram muitos desses lugares e que criaram determinados circuitos, e não os coletivos mais novos. Essa situação denota explicitamente uma hierarquia sempre negada ou ocultada discursivamente por diversos atores dessa cena, pondo em xeque seus próprios discursos e afirmações bradadas em frases como “É nóis por nóis” e “Nóis é ponte e atravessa qualquer rio!”3, além de demonstrar a existência e o exercício de disputas baseadas em lógicas meritocráticas no que tange a visibilidade no campo cultural e a partilha dos ganhos financeiros, já que tanto a Virada Cultural como o SESC remuneram os artistas contratados.

  1. Cena dois: Periferias contra o golpe e a campanha de reeleição de Fernando Haddad

Outra situação, relatada em entrevista realizada em 2017, retrata a relação da prefeitura de São Paulo, durante a gestão de Fernando Haddad (PT, 2012-2016), com um coletivo que fazia parte de minha pesquisa naquele momento. Esse coletivo, identificado à esquerda politicamente, sempre prezou por sua autonomia perante a política institucional, mesmo numa gestão progressista como a citada. Em 2016, o Partido dos Trabalhadores realizou um chamado aos indivíduos, coletivos e movimentos culturais das periferias de São Paulo para assinarem uma carta de apoio à então presidenta Dilma Rousseff (PT, 2010-2016), intitulada de “periferias contra o golpe”. O coletivo em questão decidiu não assinar a carta, por não apoiar nenhum partido político institucional, deixando em aberto para seus integrantes o fazerem ou não, individualmente. 

Ainda em 2016, a situação se repetiu quando o coletivo não assinou a carta de apoio dos movimentos culturais à reeleição de Haddad, pelos motivos já apontados. Conforme esse entrevistado, nesse mesmo ano o coletivo em questão teve seus projetos negados no VAI4 e foi excluído de outro programa que inclusive ajudou a criar. Esta situação demonstra que, mesmo no campo progressista, a cultura é percebida como mobilizada segundo interesses partidários e não exatamente de acordo com o interesse público. Na mesma entrevista, o interlocutor ainda afirmou que além de todas suas benesses, os editais geraram comodidade nos coletivos, quando estes deixam de produzir quando não são contemplados pelos editais, e uma competição, a priori interdita entre os coletivos, foi criada neste clima de disputa por financiamento. Essa última afirmação também foi corroborada por outros entrevistados à época de minha pesquisa de iniciação científica (2016 – 2019), bem como nas entrevistas realizadas durante o mestrado (2020 – 2024).

  1. Cena três: O prefeito gestor versus os produtores culturais das periferias

Outra situação que acompanhei, via redes sociais, foi o desentendimento por parte dos produtores culturais das periferias de São Paulo com o prefeito João Dória (PSDB, 2017-2018), que assumiu a prefeitura criando uma enorme celeuma com os produtores de cultura das periferias. Ainda em campanha, Dória já havia feito bravatas prometendo tirar a virada cultural do centro de São Paulo, além de se afirmar que “Os pancadões na periferia de São Paulo é um cancro que destrói a sociedade”5, numa postura contrária à gestão anterior do ex-prefeito Fernando Haddad. Haddad não só construiu um diálogo direto com os produtores culturais das periferias, como promoveu diversos projetos e ações na área, além de aprovar leis voltadas para a produção cultural das periferias, de ampliar o programa VAI, de criar o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca e sancionar a Lei de Fomento às Periferias. 

Dória, por sua vez, executou uma política higienista, com repressão à população da Cracolândia, o apagamento de grafites e pichações das vias públicas e o congelamento da verba destinada à área de cultura, em especial para as periferias, tensionando mais ainda sua relação com os coletivos culturais das periferias. Estes, entretanto, em maio de 2017, ocuparam a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo exigindo o descongelamento da verba destinada à cultura e pedindo a demissão do então secretário de cultura, André Sturm, que dias antes havia ameaçado um agente cultural das periferias, dizendo ao mesmo “vou quebrar a sua cara”6.

O embate entre parte dos produtores culturais das periferias e a prefeitura de Dória gerou situações peculiares. Uma delas foi a campanha em defesa de Sturm onde, através de depoimentos gravados em vídeo, diversos produtores culturais da cidade solidarizavam-se com ele, exaltando sua trajetória na cultura, e tecendo críticas aos “grupos privilegiados que não querem se desfazer de seus privilégios”, se referindo aos coletivos culturais das periferias, como apontava a fala do cientista político Christian Lohbauer7. Todos esses vídeos possuíam um fundo cinza, o que dava a entender que foram realizados no mesmo local, e os depoimentos colhidos eram, em sua grande maioria, de produtores culturais já estabelecidos no circuito de São Paulo e/ou ligados ao fazer cultural tido como pertencente à “alta cultura” da cidade. 

Em meio a tais depoimentos, se encontravam duas figuras destoantes – não apenas esteticamente, mas principalmente no que diz respeito à suas origens. Se tratava de dois produtores culturais das periferias, homens negros (os únicos, vale frisar), rappers, integrantes da Casa Hip Hop Sul, em São Paulo. Um deles, Eazy Jay, afirmava insistentemente sobre a necessidade do diálogo e a importância de a periferia difundir sua cultura, apontando as qualidades e o compromisso do secretário Sturm. Era notável que o depoente parecia estar lendo sua declaração. De acordo com a fala de Eazy Jay, “a nossa cultura tem que ser difundida e enquanto ficarmos em confronto, ela [a cultura] fica parada. E tem pessoas esperando para ser inseridas na cultura. E isso depende de nós, que trabalhamos com a cultura, que somos vários. Então vamos buscar através do diálogo. É isso.” À época, não notei nenhuma repercussão sobre o fato nas redes sociais ou entre meus interlocutores de pesquisa. Somente o portal Agenda Preta realizou uma matéria8 crítica sobre o assunto, inclusive destacando aquele elemento que parecia incomodar e desestabilizar as expectativas sobre as alianças e conflitos esperados a partir da atuação da prefeitura municipal naquele momento: a presença de dois produtores culturais negros e das periferias ali, em defesa de um representante do “sistema” – sobretudo um não alinhado a partidos progressistas9.

  1. Cena quatro: A prisão do grafiteiro/artista plástico

Paralelamente à tensão citada acima, houve mais uma que merece atenção, envolvendo o prefeito-gestor João Dória: a prisão do grafiteiro/artista plástico Mauro10, um dos fundadores dos coletivo cultural Imargem11, bem como o criador da intervenção visual/urbana Veracidade12. Mauro, durante os primeiros meses de Dória na prefeitura, interveio contra o apagamento de suas obras à mando da prefeitura, resultando em sua detenção. Para amenizar sua situação frente uma enxurrada de críticas, o citado prefeito anunciou uma política voltada para os grafites, criando o Museu de Arte de Rua: um lugar específico, escolhido pela prefeitura, onde artistas autorizados poderiam realizar seus trabalhos, mediante definição prévia de suas obras. A iniciativa causou mais controvérsia, particularmente entre os grafiteiros/artistas plásticos e os pichadores, em um contexto em que os primeiros acabaram por receber o título de artistas pelo poder público, enquanto os segundos continuaram considerados como vândalos e delinquentes. O MAR também dividiu os próprios grafiteiros: entre os que eram críticos ao projeto e os que se integraram ao mesmo, fazendo parte da comissão avaliadora do museu, como o próprio Mauro13, que por sua vez também teve um projeto aprovado pela prefeitura em 2019, para participar das exposições promovidas pelo MAR.

  1. Cena cinco: A capa de revista

Por fim, trago outro significativo exemplo etnográfico, também público: a matéria da revista Veja São Paulo14, publicada em junho de 2018. De início, a matéria me chamou a atenção pelo uso do termo “empreendedores”, mobilizado com a evocação do universo da cultura produzida nas periferias. Foi a primeira vez que vi a produção cultural das periferias de São Paulo associada a uma ideia de empreendedorismo, à uma visão de negócios. Distribuída em blocos, a matéria trazia os produtores culturais que estampavam a capa da revista, onde cada bloco funcionava como uma espécie de mini portfólio individual, contendo os principais feitos de cada um, suas parcerias e os valores em dinheiro, tal como mobilizados por esses jovens, caracterizados como empreendedores. Igualmente, a reportagem era repleta de frases de efeito, remetendo a um imaginário estruturado na ideia de superação individual, desatrelando a cultura de uma mobilização política mais ampla e coletiva, como, ao menos em discurso, se caracterizou a produção cultural das periferias décadas atrás. Aliás, a referida matéria não fazia nenhuma menção às desigualdades estruturais existentes nestes contextos, tal como enfrentadas pelos sujeitos que produziam cultura nas periferias. Nem o racismo, incontornável para entender tais dificuldades, chegava a aparecer na matéria. As injustiças, quando citadas – soavam como naturais, inatas àquele território e àquelas pessoas -, mas que, por outro lado, poderiam ser superadas com muito esforço individual. 

Dos paradoxos culturais nas periferias: alguns apontamentos

Cabe ressaltar que ao me referir sobre esses paradoxos, não busco por uma essência indelével daquilo que se convencionou chamar de produção cultural das periferias. O que pretendo é justamente refletir sobre a atuação destes agentes, suas proposições políticas, sociais e culturais, levando em conta os percursos e relações com as instâncias de poder, sejam públicas ou privadas, a fim de desenvolverem seus trabalhos ao longo dos anos, verificando, ainda, o que se acumulou em toda essa trajetória onde a cultura é o carro chefe – e frequentemente tomada como argumento irrefutável – de inúmeras atitudes, transformações, transações e mobilizações dentro e a partir das periferias. Seja pelo mercado cultural, seja por distintos produtores culturais das periferias. 

Dito isto, apresentarei um panorama histórico sucinto, sobre a produção cultural das periferias em São Paulo. Se, no início dessa mobilização cultural nas periferias de São Paulo, a relação com o poder – ou como o escritor Ferréz, dizia, “o sistema”15 – era quase antagônica, num tom de crítica e denúncia desse mesmo sistema, no decorrer do tempo as relações se tornaram usuais, progressivamente despolitizadas, desradicalizadas e complexas, principalmente com o poder privado (sobretudo em sua inserção/assimilação pelo mercado), ambos a partir de políticas de financiamento para a arena cultural. A relação atual sugere uma emancipação a partir da integração – por via da cultura e do consumo – com o “sistema”. Todavia, o caráter antissistêmico (REYES, 2013; SANTOS, 2019, 2024) de embate com o capitalismo e com o “establishment” brasileiro, à época do surgimento da Literatura Marginal/Periférica, fica – ao menos discursivamente – evidente neste excerto do texto “Terrorismo Literário”, escrito por Ferréz:

(…) O sonho não é seguir o padrão, não é ser o empregado que virou o patrão, não, isso não, aqui ninguém quer humilhar, pagar migalhas nem pensar, nós sabemos a dor por recebê-las. Somos contra sua opinião, não viveremos ou morreremos se não tivermos o selo da aceitação, na verdade tudo vai continuar, muitos querendo ou não. Um dia a chama capitalista fez mal a nossos avós, agora faz mal a nossos pais e no futuro vai fazer a nossos filhos, o ideal é mudar a fita, quebrar o ciclo da mentira dos “direitos iguais”, da farsa do “todos são livres”, a gente sabe que não é assim, vivemos isso nas ruas, sob os olhares dos novos capitães do mato, policiais que são  pagos para nos lembrar que somos classificados por três letras classes: C,D,E. Literatura de rua com sentido, sim, com um princípio, sim, e com um ideal, sim, trazer melhoras para o povo que constrói esse país mas não recebe sua parte. (FERRÉZ, 2005, p. 9-10).

 Segundo Leite, “[a] literatura da periferia de São Paulo se divide em dois períodos: a) Literatura Marginal, de 2000 a 2005 e b) Literatura Periférica, a partir de 2005 até os dias atuais” (LEITE, 2014). É a partir dessa “segunda onda”, marcada pelo crescimento dos saraus, que é possível delinear a mudança do sentido dos discursos e das práticas em relação à maneira como os sujeitos neste contexto percebem e reagem à presença do poder, justamente quando o mercado cultural de São Paulo começa a se abrir para os coletivos e indivíduos produtores de cultura das periferias. Ou, justamente quando não é mais possível ignorar a repercussão de tais produções. A literatura marginal/periférica destaca-se a partir dos saraus, abrindo caminho então para outras produções, como o grafitti, as artes plásticas, o teatro e o audiovisual, à atenção de outros agentes envolvidos no mundo da arte e da cultura em São Paulo – sejam como consumidores ou como produtores.

Assim, surgem coleções de livros, editais de fomento e “parcerias” com instituições privadas. A discussão sobre a cultura de periferia ganha destaque para além dos territórios onde surgiu e é mobilizada tanto pelos próprios produtores culturais das periferias, como pela academia e por setores culturais públicos e privados. Aderaldo (2017) afirma que durante esse processo o conceito de “cidadania cultural”16 ganhou maior força e espaço na cidade de São Paulo, transformando as relações dos movimentos políticos e culturais das periferias – marcadas, até então, por um enorme descaso e pela tensão e enfrentamento – com o poder público e privado. 

(…) o surgimento de uma série de coletivos e movimentos culturais em regiões periféricas e o investimento considerável em políticas – por parte dos órgãos gestores das esferas federal, estadual e municipal – orientadas pelo referido princípio da “cidadania cultural”, no começo dos anos 2000, gerou importantes efeitos práticos, como uma sensível multiplicação do número de ONGs dedicadas ao ensino de atividades culturais junto a populações consideradas como social ou culturalmente “marginalizadas”, a ampliação das oportunidades de criação e fruição artística da parte dessas mesmas populações e o fortalecimento de espaços “alternativos” de produção e consumo cultural, sobretudo nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos. (ADERALDO, 2017, p. 22).

As questões sobre o alcance da atuação dos sujeitos e suas obras, bem como sobre a relação estabelecida com o poder constituído – até então alheio àquele universo cultural das periferias -, que marcaram a forma como algumas mudanças foram percebidas por meus interlocutores de pesquisa, ficam ainda mais evidentes e significativas quando levamos em conta o “projeto pedagógico, estético e político” (NASCIMENTO, 2009) identificado nessas produções. Nascimento (2009), afirma que tal projeto faz alusão ao uso da literatura como um ato político que visa dialogar com as populações das periferias urbanas brasileiras. Refere-se à construção de um discurso que pretende “ensinar” ou “ampliar” a capacidade crítica do público, por meio de textos com fundo moral e/ ou ético. (NASCIMENTO, 2009, p. 80). 

Observar as cenas descritas acima, era algo que destoava muito daquilo que acompanhei em campo, desde o período de pesquisa da iniciação científica até a escrita da monografia (2019) resultante destas investigações, e que passei a olhar com atenção durante o mestrado. Mesmo com diferenças, a produção cultural destes coletivos era norteada pela crítica às desigualdades sociais e estruturais, no intuito de superá-las; e pelas ações políticas num campo político descrito como de esquerda, similar à ideia de poder popular de um imaginário social mais amplo. Sua ideia de cultura era próxima de um projeto de autodeterminação das periferias, com acesso a equipamentos públicos de qualidade, como escolas, postos de saúde, creches e afins, tal qual contra o genocídio da população negra e periférica. Temas que, por mais de uma vez, presenciei serem discutidos para além de sua citação em poesias e textos, dentro das atividades desses dois coletivos.

Isso não significa que os coletivos e sujeitos da matéria da revista Veja São Paulo não se importem com tais temas. Porém, seus discursos e ações parecem rearranjar práticas e estabelecer novas tensões e disputas. A referida matéria sintetiza a percepção de que existem novas lógicas em jogo, redefinindo disputas e produzindo novas dinâmicas que acredito serem fundamentais analisar. A reportagem parece se alinhar com um discurso muito presente na esfera social atualmente, derivado de uma lógica empresarial em que pessoas e suas complexidades são recursos que precisam ser geridos para “dar certo”. Uma lógica onde o enfrentamento e a superação das desigualdades estruturais se dão no âmbito do sucesso individual, e dependem exclusivamente de esforço pessoal. Uma lógica que busca silenciar – com todo um aparato material, estético e subjetivo – a história coletiva de lutas, mobilizações e conquistas das periferias, transformando estas em valores meritocráticos, de autoajuda ou mercadológicos. Ou ainda, transformando o desejo de dignidade e de qualidade de vida das pessoas em uma essência empreendedora. Estava em curso algo aparentemente muito diferente dos propósitos enunciados pelos produtores culturais das periferias no momento do surgimento destes coletivos como uma movimentação político-cultural, há mais de vinte anos.

Essa lógica empresarial, de negócios, empreendedora e meritocrática, tipicamente neoliberal, mais do que nunca tem sido estimulada na atualidade. Entretanto, o termo cultura nunca foi tão evocado a partir dessa lógica como agora, paradoxalmente em nome da inclusão, da diversidade e da representatividade, com a mobilização de processos relacionados à constituição de identidades a partir da cultura. Stuart Hall (2016) reflete sobre a relação entre cultura e poder, ao retomar a análise de Foucault do quadro “Las Meninas” de Diego Velázquez. Ao retomar a discussão, Hall também apresenta a problemática sobre o quadro, ao debater sobre quem está sendo representado na pintura, qual é o sujeito da pintura, uma vez que demonstra como é possível multiplicar os ângulos e perspectivas sobre que sujeitos estão sendo representados, ao acompanhar o jogo de espelhos e olhares na obra do pintor espanhol. Entretanto, sugere Hall, o sujeito “principal” a ser representado na tela de Velázquez é o espectador. Ou, como Foucault diria, o “sujeito-espectador”. Segundo Hall, a pintura de Velázquez só tem sentido ao abandonar a noção de que ela tem uma posição fixa em si mesma. Este sentido é, “portanto, construído no diálogo entre a pintura e o espectador” (HALL, 2016, p. 106).  O autor ainda aponta que: 

Nesse sentido, o discurso produz uma posição de sujeito para o espectador-sujeito. Para a pintura funcionar, o espectador, quem quer que ele seja, deve primeiro se sujeitar ao discurso dela e, dessa forma, tornar-se o espectador ideal da pintura, o produtor de seus sentidos – o seu sujeito. Isso é o que significa quando é dito que o discurso constrói o espectador como um sujeito – pelo que queremos dizer que ele constrói um lugar para o sujeito espectador, que está olhando e produzindo um sentido para a cena. (HALL, 2016, p. 107)

Conforme delineado por Hall, como podemos pensar o discurso do mercado e seu atual interesse pelas identidades culturais não hegemônicas no contexto atual, incluso a identidade periférica? A respeito da representação dentro da lógica de mercado, poderíamos nos perguntar, este também sujeita as identidades que buscam representação e legitimidade ao seu discurso, primordialmente, mesmo quando consideradas à margem e não no “centro da pintura”? É evidente que as periferias também não estão fora dos interesses desta lógica. Se algo tem sido mobilizado a partir das periferias pelo mercado, são suas identidades culturais. Ainda na obra supracitada, o autor discute acerca do racismo como um mobilizador social, subjetivo e econômico do Império. Será que atualmente podemos entender certo aspecto do antirracismo e da promoção da diversidade cultural como um novo bem comercial do Império, ou seja, do poder? É interesse deste trabalho apontar os aspectos dessa relação entre cultura, neoliberalismo e (neo)colonialismo, considerando, tal como nos ensina Hall, a importância de deslocar pressupostos e certezas ao considerar a política e o poder na produção e na análise da cultura. 

Este artigo se alinha ainda com aquilo que Lila Abu-Lughod denominou de “a escrita contra a cultura” (ABU-LUGHOD, 2018). A autora, tece diversas questões relevantes sobre o fazer antropológico e seus desafios críticos, referenciando diversos aportes não só da antropologia feminista, mas também da antropologia produzida por não brancos/as e não ocidentais para indicar certos pontos cegos de uma crítica que não volta a si mesma a reflexão sobre sua posição. Uma das críticas mais afiadas no texto é a que se detém sobre o conceito de cultura: 

(…) O conceito de cultura é o termo oculto em tudo que já foi dito sobre antropologia. A maioria dos antropólogos/as americanos acredita ou age como se acreditasse que a “cultura”, notoriamente difícil de definir e ambígua como referente, ainda assim fosse o verdadeiro objeto da investigação antropológica. Não obstante, poderíamos dizer que a cultura é importante para a antropologia graças à distinção antropológica entre eu e outro que nela subjaz. (…) Mas apesar de sua intenção anti-essencialista, o conceito de cultura mantém certas tendências a cristalizar diferenças, algo que conceitos como raça também fazem. Isso se torna mais evidente se observarmos um campo em que a mudança tenha se dado de um conceito para o outro. O orientalismo como discurso acadêmico (entre outras coisas) é, de acordo com Said (1978, p. 2), “um estilo de pensamento baseado em uma distinção lógica e epistemológica feita entre ‘o Oriente’ e (na maior parte das vezes) ‘o Ocidente’”. O que ele mostra é que, ao cartografar conjuntamente geografia, raça e cultura, o orientalismo fixa certas diferenças entre pessoas “do Ocidente” e pessoas “do Oriente” de maneiras tão rígidas que podem facilmente ser consideradas inatas. (ABU-LUGHOD, 2018, págs. 200/201)

Tal como serve de alerta para a própria análise antropológica proposta pela autora, é relevante aqui não só entender como as agências de fomento e meus interlocutores mobilizam o conceito de cultura, mas interpretar que tipo de “outro” é construído a partir disso, discursivamente e subjetivamente, e como meus interlocutores compreendem e significam este processo. Assim, levando em conta nosso passado colonial e suas implicações no contexto das periferias, tal qual o modo como tem sido mobilizado o conceito de cultura em torno destas, este trabalho acata a indagação que Lila Abu-Lughod faz aos antropólogos e à antropologia, a partir de sua leitura de Edward Said. Isto é, se “deveriam os/as antropólogos/as tratar ‘cultura’ e ‘culturas’ com a mesma suspeita, sendo estes termos chave num discurso em que outridade e diferença acabam por se tornar, como diz Said (1989, p. 213), ‘qualidades talismânicas’?” (ABU-LUGHOD, 2018). Consequentemente, a mobilização do termo cultura, por seus diferentes agentes, estará sob suspeição e será demarcada de acordo com os interesses em torno dela.

Vale dizer que este trabalho não se enquadra numa análise detida sobre a produção artística das periferias, ainda que a literatura científica sobre o tema seja fundamental para minhas reflexões. Parte desta bibliografia é mobilizada aqui, como os trabalhos de Aderaldo (2017), D’Andrea (2022), Leite (2014a; 2014b), Nascimento (2009; 2011; 2016;), Reyes (2013), Silva (2013; 2016), Tennina (2016; 2017). Esses trabalhos, e outros, se detiveram em evidenciar as particularidades da cultura produzida nas periferias, anunciando suas novidades e contribuições, além de celebrar suas qualidades. E é por essas questões e outras já apresentadas, que este trabalho privilegia, uma investigação sobre “as palavras de incentivo que o sistema dá” (GOG, 2004) a tal produção e as encruzilhadas em que ela se encontra.

As palavras de incentivo que o sistema dá: A “periferia neoliberal”

Cabe aqui percorrer outros fatos na arena pública, que também possuem implicação no fazer cultural nas periferias e na agência de seus atores, como meus interlocutores. Um destes fatos está materializado na pesquisa do Núcleo de Opinião Pública, Pesquisas e Estudos da Fundação Perseu Abramo, intitulada “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo”, que “revelou” uma tendência conservadora e liberal nas periferias. A pesquisa revela, ainda, a incapacidade do principal partido progressista brasileiro de fazer uma autocrítica séria sobre sua atuação nos últimos quarenta anos. Publicada em 2017, o estudo teve grande repercussão na mídia e causou um interessante debate intelectual, em que parte das análises apontava a periferia como liberal, conservadora e até mesmo anarquista. Também houve muitas críticas à leitura feita pela pesquisa, apontando a falta de profundidade, a crise de representatividade, bem como a fetichização da pobreza por parte da “esquerda”17, além do clima de polarização e a falta de um projeto de sociedade para além do acesso ao consumo. Nota-se que, em muitas matérias como na pesquisa citada, além do teor essencialista e romântico sobre as periferias, há um tom de espanto com o aspecto conservador e liberal de boa parte das respostas dos sujeitos dos coletivos culturais às indagações sobre as mudanças no cenário cultural periférico.      Como se a periferia e os pobres – mais uma vez – fossem um mundo à parte ou ainda o “sujeito ideal” do Lulo petismo e do progressismo, ou o “sujeito revolucionário” por excelência da esquerda brasileira. 

Em meio à profusão de matérias derivadas da referida pesquisa, duas chamam muito a atenção, por possuírem uma análise assertiva sobre o “fenômeno” do conservadorismo e do liberalismo nas periferias e favelas de São Paulo. A primeira, é uma entrevista18 do sociólogo Gabriel Feltran em abril de 2017. Nessa entrevista, ao ser questionado sobre a dificuldade que a esquerda tem para compreender esse universo das periferias e sobre como a esquerda se distanciou dos trabalhadores, Feltran afirma que:

(…) Nas eleições municipais as periferias de São Paulo elegeram a Erundina, o Maluf, o Pitta, a Marta, o Kassab, o Haddad e o Dória. Mas, veja, elas votaram no Lula, majoritariamente, desde 1989. É evidente, então, que não é um voto ideológico, partidário, no sentido clássico direita x esquerda, que muita gente quis e quer ver. É um voto que concebe o mundo a partir da proximidade, da relação pessoal, da confiança na ética do candidato, um voto próximo e moral. Que por isso sempre esteve muito próximo das igrejas, espaços altamente politizados. E sabemos que a expansão pentecostal é muito mais conservadora que progressista, ao contrário das comunidades de base católicas. (…) As esquerdas foram perdendo o voto nas periferias, nos últimos anos, quando deixaram de ser esquerdas. Ou seja, quando perderam proximidade com o que acontecia no mundo popular. E quando consideraram que essa proximidade, que as comunidades de base tinham, que as pastorais tinham, que os sindicatos tiveram, era menos importante eleitoralmente do que televisão e políticas populares, de melhora do bem-estar, como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida etc. E ainda pior, quando perderam a imagem de mudança, de renovação. Quando se tornaram moralmente iguais aos demais políticos tradicionais. Não há espaço vazio em política. Outros grupos, como as polícias militares (que têm horas de programa diário na TV aberta, dentro das casas das periferias, com figuras carismáticas como apresentadores), os evangélicos (com suas ações midiáticas e de base), bem como o empreendedorismo do mercado de trabalho, têm estado bem mais perto. E estando perto, ganham eleição ali. (Gabriel Feltran, em entrevista cedida para a Pública – Agência de Jornalismo Investigativo, em 17/04/2017).

No mesmo ano, outra entrevista19 significativa e emblemática – em sintonia com a percepção política das periferias em São Paulo – foi dada por Mano Brown, dos Racionais Mc ‘s, grupo musical tido como representante fidedigno das periferias. Na entrevista, Brown também é inquirido sobre as transformações ocorridas nas periferias nos últimos anos e a relação disto com a conjuntura política nacional, em especial a polarização entre esquerda e direita, ao que pondera questões interessantes:

O Tim Maia falava isso: no Brasil, pobre é de direita. O governo Lula deu uma condição de o povo ter algumas coisas, e depois desse governo o povo quer polícia para defender essas coisas. Ele se torna um cara de direita, que defende os valores que foderam ele. Isso refletiu contra o preto. Você vai ao Norte, Nordeste: Fortaleza, campeã de homicídio no país. Maceió, Salvador, Recife… Morre preto pra caralho. Se na época do Lula já era difícil, imagina agora? Aí os moleques viram facção mesmo. Você pega um cara que foi abandonado por todo mundo e acolhe, dá uma assistência, um nome, uma família… (Mano Brown, em entrevista cedida para o Le Monde Diplomatique Brasil, em 08/01/2018)

Em ambas as entrevistas, fica evidente que a maior questão nas periferias é e sempre foi a sobrevivência, a reprodução da vida. E isso foi e segue sendo mobilizado e disputado de diferentes formas, com a primazia de quem oferece respostas concretas para situações cotidianas. Mesmo que isso signifique mais repressão policial, ou como diria um antigo político conservador, “a rota na rua”. Ademais, vale citar que foram poucas vezes que a população do município de São Paulo permitiu que uma gestão progressista pudesse atuar. O que dirá a do Estado. 

Entretanto, é interessante outro fato que ambos entrevistados não discorreram sobre, mas que também está ligado à Fundação Perseu Abramo e ao Partido dos Trabalhadores que, contudo, não fez parte da análise da referida pesquisa. Trata-se do surgimento dos editais e da infraestrutura criada em torno dos mesmos para a capacitação dos jovens produtores culturais das periferias na captação de recursos para seus projetos. Entendo que esse momento é fundamental para compreender não só o contexto atual da produção cultural nas periferias, como também dar uma possível resposta à citada pesquisa da Fundação Perseu Abramo e sua “visível decepção”, ao nomear a periferia como neoliberal. Aderaldo (2017) aponta algo importante sobre este tema: com o surgimento dos editais, paralelamente criou-se uma infraestrutura técnica em torno dos coletivos e indivíduos produtores de cultura nas periferias, para capacitá-los na elaboração de projetos e captação de recursos. Além de instruí-los nesse sentido, tal iniciativa fomentou a busca por financiamento privado, já que muitos de seus editais eram provenientes da parceria com ONG ‘S e outras parcerias público-privadas. Ademais, municiou-os com um aparato semântico e subjetivo correspondente a tal meio de negócios sociais.  

Criou-se, então, um circuito que saiu das periferias e acessou os espaços da cultura hegemônica na cidade de São Paulo. A produção cultural das periferias ganhou espaço em diversas instituições e eventos prestigiosos na cidade. Trata-se de inúmeras benesses trazidas pelos editais que também trouxeram outras questões que é preciso compreender. Como Aderaldo nos mostra, ao acompanhar um coletivo de audiovisual, quando surge a possibilidade deste se institucionalizar perante o Ministério da Cultura e a Secretaria Municipal do Audiovisual, para angariar maior capital cultural e financeiro, a heterogeneidade que compunha o grupo – que tinha princípios políticos mais alinhados com os movimentos populares e sociais e contra as regras do mercado, se preocupando inclusive com a formação de seus integrantes e público – tomou proporções controversas. Em meio a conflitos internos, interesses díspares daqueles que haviam originado o grupo acabaram por se tornar centrais, muitas vezes sendo justificados pela mobilização essencialista de uma noção de periferia, desprovida de maior amplitude política. Sobre esse momento, Aderaldo afirma que:

Aos poucos a rede foi migrando de uma associação voltada à coordenação de eventos e ações públicas entre coletivos culturais especialmente dedicados à linguagem audiovisual na cidade, na direção de uma entidade responsável pela dinamização da distribuição e divulgação de filmes realizados por coletivos com propostas e posicionamentos radicalmente diversos, sendo que uma parte destes foi atraída somente pela oportunidade de partilha dos benefícios proporcionados pela eficiência do sistema de distribuição e exibição de filmes, promovido pela organização reticular do CVP. Deste modo, uma variedade de posturas e representações que haviam inicialmente incentivado a crítica por parte desta rede de coletivos, passaram a ser encontradas dentro dela própria, o que transparecia nos filmes que recebiam, nos textos que acabavam sendo publicados na revista que editavam e no esvaziamento das reuniões. (ADERALDO, 2017, pág.192)

Como meus interlocutores relataram em entrevistas (SANTOS 2019, 2024), os editais também promoveram uma disputa entre os coletivos, ao mesmo tempo que uma dependência deles ao modelo de financiamento para a cultura. Tommasi e Velazco (2016) fazem uma observação similar sobre um projeto social destinado aos jovens de favela no Rio de Janeiro, o que nos faz concluir que esse processo ocorre também em outros contextos urbanos no Brasil. Ademais, o acesso aos editais e a captação de recursos trazem consigo discursos, subjetividades e visões de mundo específicas. Subjetividade, aqui, é abordada na perspectiva de Ortner:

Por subjetividade eu sempre vou me referir a uma consciência cultural e historicamente específica. Ao usar a palavra consciência eu não tenho a intenção de excluir várias dinâmicas inconscientes, como visto, por exemplo, no inconsciente freudiano ou no habitus bourdiano. Mas o que quero dizer é que subjetividade é sempre maior que estas coisas, e de duas maneiras. No nível individual, vou supor, com Giddens, que os atores sempre são no mínimo parcialmente “sujeitos cognoscentes”, que eles possuem algum grau de reflexividade sobre eles mesmos e seus desejos, e que eles possuem alguma “penetração” nos meios nos quais são formados por suas circunstâncias. Eles são, em resumo, conscientes no sentido psicológico convencional, algo que tem de ser enfatizado como um complemento, e não em substituição, à insistência de Bourdieu na inacessibilidade, para os atores, da lógica subjacente de suas práticas. No nível coletivo, uso a palavra consciência tal como é usada tanto por Marx como por Durkheim: como a sensibilidade coletiva de um conjunto de atores socialmente inter-relacionados. Consciência é, nesse sentido, sempre ambiguamente parte das subjetividades pessoais das pessoas e parte da cultura pública (…) (ORTNER, 2007, págs. 380/381) 

De acordo com essa ambiguidade que compõe a subjetividade e a consciência social, percebe-se que, por um lado, a infraestrutura em torno dos editais possibilitou o financiamento e o desenvolvimento de diversas produções culturais nas periferias – o que garantiu sua visibilidade, bem como a de seus agentes, no circuito cultural hegemônico -, por outro lado, também capacitou a especialização na captação de recursos para além dos editais públicos de cultura, como o financiamento de empresas e instituições privadas, e também fomentou clivagens, hierarquias, disputas e uma massa de “trabalhadores culturais de edital” (DE TOMMASI & CORROCHANO, 2020; DE TOMMASI & SILVA 2020) precarizados. Em relação ao poder público e privado e a capacitação do uso de editais de fomento, há três depoimentos interessantes de lideranças – Marcio Batista, Rose Dórea e Sergio Vaz – da Cooperifa20, presentes no trabalho de Nascimento (2011), os quais reproduzo abaixo e que ajudam a entender essa dinâmica. 

O VAI estar [nos] financiando é obrigação… nós participamos sim, porque é dinheiro público […] E o dinheiro do Itaú Cultural, é do Itaú? Não é do Banco Itaú, aquele dinheiro também é dinheiro público que o governo, pra não ter essa responsabilidade que é do Minc de fazer a distribuição de verba pública, o que que ele faz? Ele dá isenção pro Banco Itaú e o Banco Itaú criou uma instituição. E o dinheiro, que é público, fica na mão de uma instituição cultural. Então o quê que nós fazemos? O jogo não funciona assim? Nós tamo no jogo, então… com o Itaú Cultural é essa relação de dinheiro público que eles estão lá administrando e enquanto funcionar assim, né, e se a gente achar que deve ir lá… (Márcio Batista em entrevista à Érica Peçanha do Nascimento em 25 de julho de 2011).

Rose Dorea acrescenta:

[…] Mas, que nem, quando o Itaú veio, da forma que o Itaú veio, eu achei muito bonito, veio de uma forma legal. Mas teve outros lugares… o VAI foi uma coisa que me preocupou um pouco… como que o VAI ia vir… mesmo sendo dinheiro público, porque a gente tem um negócio de ser meio autossustentável, né? E aí eu não sei como ia soar na cabeça de algumas pessoas o fato da Cooperifa ter aceitado essa grana, entendeu? Mas só por isso, não que… eu acho que sendo dinheiro público tem que se tomar muito cuidado pra não perder o foco, fazer o que muita gente faz, que é usar esse dinheiro em prol de si mesmo… porque, querendo ou não, mesmo a gente fazendo tudo o que a gente faz, muita gente acha que a gente faz isso, que a gente pega o dinheiro e usa em coisa pra gente, mas isso é uma coisa que não acontece, isso é uma coisa que me magoa bastante, esse é o tipo de comentário que acaba comigo (Rose Dorea em entrevista à Érica Peçanha do Nascimento  em 25 de julho de 2011).

E por fim, Sérgio Vaz fala sobre a importância da principal parceria da Cooperifa, que “viabilizou” a antologia O rastilho da pólvora, de 2004, o CD de poesias “Sarau da Cooperifa”, de 2006, e a “Revista Cooperifa”, de 2011, bem como financiou a Semana de Arte Moderna da Periferia e a Mostra Cultural da Cooperifa (…)” (NASCIMENTO, 2011). Sobre esta parcerias, Vaz afirma:

Eu acho que todos os nossos sonhos foram possíveis graças às parcerias. É como eu disse, há coisas que dá pra você fazer sem dinheiro e há coisas que não dá para fazer sem dinheiro. E há coisas que dá pra fazer com dinheiro, mas sem a parceria não dá, existe uma parceria afetiva também. Na minha concepção, o Itaú não é só o prédio, não é só um banco, eu conheço as pessoas que estão lá, eu almoço com elas, eu bebo cerveja com elas, então não é só a grana, então é uma parceria afetiva… assim como a gente já recusou outras parcerias, entendeu? Por incrível que pareça estamos facinho, mas não estamos muito facinho [risos]. (Sérgio Vaz em entrevista à Érica Peçanha do Nascimento em 29 de julho de 2011).

É notável a articulação em torno dos financiamentos por parte da Cooperifa, assim como a visão de seus integrantes sobre o que chamam de parcerias. É simbólico também o fato de que o VAI, ao mesmo tempo que é uma “obrigação”, causa medo sobre como “virá” e como será a percepção pública do uso deste edital pela Cooperifa, tal qual sua prestação de contas e na ideia de “autossustentabilidade” do grupo. Cabe pensar o modo como as subjetividades são mobilizadas para justificar as ações a que estes agentes se propõem, mobilizando seus anseios, vontades e desejos, dentro do sistema cultural em que estão inseridos. 

Durante o mestrado, também me deparei com depoimentos21 onde a percepção sobre financiamento público e privado apontava para uma visão crítica ao poder público, reconhecendo o financiamento privado como uma possibilidade mais efetiva para a realização das ações culturais de qualidade e para a valorização dos produtores culturais, como afirmou Vanilson, integrante do Imargem, retratando o processo de acesso tanto do Imargem como da Ecoativa22 aos editais de financiamento do setor privado:

(…) Acho que essa ideia de edital público e empresas privadas, faz um pouco a gente pensar assim, né, que o edital é ajuda de custo. Não é nenhum salário e não é nenhuma renda. É uma ajuda de custo e olhe lá! Às vezes bem, bem mínima. A gente tem que fazer três projetos com editais para ter uma renda legal, assim, pra você falar “pô, por mês, eu consigo me bancar”. E o SESC trouxe uma ideia que não era essa, de ajuda de custo. Que a gente precisa, a gente precisa mesmo de ser custeado pelo trabalho que você faz, remunerado. E aí veio essa ideia de que o edital é uma ajuda de custo, mas as empresas privadas é uma coisa remunerada, que é um trabalho mesmo, que tem um reconhecimento do que cada um faz, como educador, como artista, com o que cada um se identifica com o que é. (Vanilson, entrevista cedida em 06/06/2021).

Ademais, para Vanilson, o acesso ao financiamento privado simboliza uma espécie de ascensão dentro do mercado cultural e de reconhecimento no setor privado, a partir da concessão, execução e prestação de contas do financiamento público:

(…) E o edital também não é uma coisa que é rentável, assim. A pessoa que acha que dá pra ganhar dinheiro, que vai ficar… Putz, a gente fazia três editais porque tinha que fazer, se não, não daria conta, né meu? Não é um valor suficiente pra pessoa fazer o que quer da vida, sabe? Então vamos fazer, escrever dois projetos para dois editais. Foi essa ideia, o VAI não aceitava que um coletivo participasse mais de duas vezes do edital. Então foi uma coisa automática, do projeto ganhar visibilidade em outros lugares e outras pessoas falarem: “Olha, que legal! Tem um projeto tal que participou de tal e tal edital” porque o edital dá visibilidade também, né? O projeto ganha visibilidade no edital também! Outras empresas também estão vendo vários projetos que estão acontecendo porque eles estão querendo sacar, porque o [setor] social tá querendo fazer também né? Todas as empresas têm o [setor] social, então… (Vanilson, entrevista cedida em 06/06/2021).

Outro desdobramento dos editais é a concorrência subjacente que foi criada entre os diversos coletivos culturais. Durante minha iniciação científica, essa questão surgiu em várias entrevistas e, no mestrado, reapareceu, sobretudo entre meus antigos interlocutores. Em 2017, o coletivo Poesia na Brasa23, que nunca fez uso de financiamentos privados, além de pontuais atividades na Rede Sesc, fazia a leitura de que “os editais além de amarrarem os coletivos a uma gestão, os tornam uma espécie de reféns das verbas públicas. Isso porque muitos coletivos passaram a pautar suas atividades, mediante sua contemplação por algum edital” (SANTOS, 2019, pág. 89). Sonia Bischain, do Poesia na Brasa, afirmou que o surgimento do VAI foi importante para possibilitar a realização e o desenvolvimento das atividades culturais nas periferias, mas também fez uma leitura crítica de certos aspectos dos editais:

(…) Foi bom porque a gente conseguiu publicar vários livros, mas assim, não é a coisa mais importante. A gente também conseguiu publicar sem a verba, sabe? É lógico que teve casos em que as pessoas que pegaram a verba, ajudaram saraus que não tinham entrado no programa. Porque não podiam pegar, porque só podia pegar dois em seguida e o terceiro você já não pegava… Mas a gente conseguiu fazer também sem verba. Fizemos com outras parcerias, de outras maneiras… Então, eu acho assim, que pra muita gente foi importante, mas chegou uma hora em que só se faziam coisas em alguns grupos se tivesse verba pública. A gente foi em muitas escolas, em muitos lugares sem ganhar nada! Não tinha verba. (Sonia Bischain, entrevista cedida em 04/07/2017).

Em entrevista com Ana Fonseca, do Coletivo Perifatividade24, ela discorreu sobre a lógica que as vagas limitadas dos editais impõem aos coletivos culturais, que mesmo que se possa fazer uma leitura de que tal condição incremente o esforço para escrever e executar um projeto, ainda assim não deixa de estimular uma lógica de competição entre os produtores culturais das periferias. Ou seja, mais uma vez o acesso aos editais e suas infraestruturas correlatas também estão imbuídos de disputas em torno da ideia de mérito, limitando a ação de quem tenta agir de outra maneira, como se percebe no depoimento seguinte:

(…) Agora, um projeto como o fomento [lei e fomento às periferias] de dois anos de realização, você propor um negócio que você faz sempre… (…) eu, se fosse avaliador, eu não aprovaria. Então, eu tento não ser aquela coisa condicionada, mas eu tento pensar, porque se eu não pensar com a cabeça de quem tá avaliando e escrever o que eu quero, aí é um escrito meu, pessoal. Eu posso guardar no armário. Não um projeto! É ruim pensar assim. Eu não me sinto bem, mas na verdade, é isso. Você está pra disputar com seus irmãos, aquela migalhinha. Mas é isso! Meu, a gente está disputando com a gente do Ipiranga e com gente do Heliópolis! Se a gente mandasse esse ano, a gente ia estar disputando com a Me Parió [Me Parió Revolução, um coletivo editorial de mulheres] que também tem gente do Perifatividade! Você imagina se a gente tivesse nesse mesmo ano concorrendo? Que chato? O que eu tô falando, é como o sistema público nos coloca em disputa! E a gente tem que, se quiser participar – porque podemos também falar “não queremos participar disso, ficar disputando com meus irmãos”. Mas se a gente quer participar, então que a gente mande alguma coisa que vale a pena ser mandada, né? (Ana Fonseca, entrevista cedida em 11/09/21).

Assim, fica posto que a estrutura em torno dos editais também germinou hierarquias, disputas, dependência e até mesmo a desarticulação política de uma verve mais radical e crítica entre coletivos periféricos, no que tange a participação popular para além das quatro linhas da democracia representativa. Ademais, pavimentou o caminho das iniciativas privadas no âmbito dos financiamentos na cultura das periferias, até mesmo inferindo na gestão pública. Dessa forma, levando em conta a desmobilização e o abandono dos quadros de base do Partido dos Trabalhadores nos anos 1990 (D’ANDREA, 2022; FELTRAN, 2007, 2011) – institucionalizando-os em aparelhos técnicos e burocratas para a disputa eleitoral no nível federal, criando quadros nas esferas da “alta política” -, como inferir às periferias o status de “liberais”? Como assinalar tal resultado, sem levar em conta que as políticas culturais e de juventude – destinadas ao então terceiro mundo –, foram e continuam sendo gestadas nos grandes salões do Banco Mundial e do FMI (DAVIS, 2006; REYES, 2012; YÚDICE, 2006) para o controle desta população? Essas são políticas que tiveram seu início no governo federal – de um presidente sociólogo e de uma primeira-dama antropóloga –, conhecido por seu forte caráter privatista, mas que o Partido dos Trabalhadores abraçou sem pestanejar, e mais: ampliou e fez dessas políticas, sua marca registrada. Afinal de contas, quem é e onde está o (neo)liberal?

Identidade, representação, agência e sobrevivência na “Era da Perifa”

A discussão sobre o mercado cultural e a produção cultural das periferias ganhou centralidade, a partir da Literatura Marginal/Periférica. Nascimento (2009) discorre sobre este tema, abordando diversas características deste mercado. A autora afirma que “[v]ale ponderar que a designação “literatura periférica” ou “literatura da periferia”, e seus correlatos, “escritor periférico” ou “escritor da periferia”, são sinônimos utilizados pelos próprios escritores aqui estudados (sobretudo quando se apresentam em outros espaços sociais que não a periferia)” (NASCIMENTO, 2009, pág.124). Assim, a autora afirma que os significados da adjetivação que acompanham a literatura produzida nas periferias funcionam também como uma “marca” que “pode ser usada como diferencial no mercado” (NASCIMENTO, idem). Uma marca que, ora acrescenta um “valor da ‘autenticidade’” (NASCIMENTO, idem) para as obras de determinados autores, interessante para o mercado editorial; ora interessa aos autores, exteriorizando “certo desejo de marginalidade na escolha do tema ou do discurso assumido, de tal forma que a estigmatização passa ser o vetor das vendagens das obras e da carreira literária de moradores da periferia e presidiários” (NASCIMENTO, idem). 

Silva (2013), aborda os encontros e desencontros entre a literatura negra e a periférica, relacionando-as com seu momento histórico e apontando, além de possibilidades, encontros e confluências, também divergências, tensões e paradoxos. Um dos depoimentos do escritor Ferréz, contido na obra de Silva, é interessante para esta pesquisa, não só para reiterar a ambiguidade presente – à época – na Literatura Marginal/Periférica, no que tange sua diversidade de interesses e de atores, mas também como tal identidade, ou marca, como vimos acima, é mobilizada:

Os caras têm o sonho, cara! De que vão andar lado a lado com a elite da Literatura, tá ligado? Tem muito cara que tá no gueto, que tem o falso discurso, que acha que vai ralar com os caras e que vai tá lado a lado ali, e vai conviver e não quer ser distinguido como Literatura Marginal, sabe? Se você pegar o livro do Malcom [Malcom X, Autobiografia], no Harlem, tem os negros que são os negros mesmo e se assumem e tem os negros que já tão mais brancos, tão tomando uísque com os caras, que tão falando baixinho, querendo entrar na sociedade, cê tá entendendo? Então, tem muito cara desse também na periferia. Muito cara da periferia que quer ser elite. A maioria quer ser elite. Os caras não quer ser pobre. E eu também não quero ser pobre! Eu não fiz voto pra pobreza, tá ligado? Só que tem diferença! Até onde você vai pagar o preço pra ser desse jeito. (SILVA, 2013, pág.634/635).

Dessa forma, depreende-se como a questão da identidade é de vital importância na literatura como também nas demais produções culturais realizadas nas periferias, para além de seu projeto pedagógico, estético e político. Tal produção está intrinsecamente relacionada com a sobrevivência material de seus agentes. É onde a identidade periférica talvez encontre seu maior lastro, o elo que une seus sujeitos desde sempre, que é a luta por sobrevivência em meio à precariedade estruturante. 

Essa identidade que foi ressignificada no aspecto artístico e subjetivo, e que também foi responsável pela “elevação da autoestima das periferias” (D’ANDREA, 2021, 2022; DE TOMMASI 2013, 2014; NASCIMENTO, 2009, 2011, 2016; REYES, 2013; SILVA 2013, 2016; TENNINA 2017), ainda segue estritamente marcada pela precarização das condições dos agentes culturais – à exceção daqueles que passaram pelo buraco da agulha do mercado cultural, conseguindo alguma estabilidade –, como também das periferias. Retomando o conceito de agência, mobilizado para se referir às possibilidades de ação desses sujeitos marginalizados/subalternizados frente à avalanche de desigualdades estruturais que pesam sobre eles, cabe refletir sobre os limites desse conceito para, quem sabe, aprofundar o debate e qualificar a discussão num terreno mais concreto e prático. 

No primeiro capítulo de A constituição da sociedade, Anthony Giddens apresenta os fundamentos de sua teoria da estruturação, buscando superar dicotomias clássicas da teoria social, sobretudo aquela que opõe ação e estrutura. O autor argumenta que estruturas sociais não existem como entidades exteriores, estáticas ou coercitivas que determinam o comportamento humano, mas como conjuntos de regras e recursos que só se atualizam por meio da prática social, sendo continuamente produzidas e reproduzidas pelos agentes. A ação, por sua vez, é concebida como processo reflexivo, no qual os indivíduos monitoram suas condutas e as circunstâncias de sua atuação, mobilizando conhecimentos práticos que permitem orientar e ajustar suas rotinas.

Essa perspectiva leva Giddens a formular a noção de dualidade da estrutura, segundo a qual estrutura e agência não são polos opostos, mas dimensões simultâneas e interdependentes da vida social: as estruturas moldam a ação, ao mesmo tempo em que são moldadas por ela. Nesse capítulo, Giddens também enfatiza o caráter situado e temporário da ação, o papel das rotinas na manutenção da ordem social e a inseparabilidade entre poder e agência, uma vez que agir implica sempre a capacidade de produzir efeitos no mundo. Com isso, o sociólogo estabelece as bases conceituais para compreender a sociedade como um processo dinâmico e recursivo, no qual sujeitos e estruturas se constituem mutuamente.

O conceito de agência em Sherry Ortner mantém diálogo direto com a teoria da estruturação de Anthony Giddens, mas acrescenta dimensões analíticas que complexificam a relação entre ação, poder e contexto social. Em Giddens, a agência é entendida como a capacidade dos atores de “fazerem a diferença” no curso dos acontecimentos, sempre articulada ao poder como possibilidade de mobilizar recursos, e situada na dinâmica da “dualidade da estrutura”, pela qual ação e estrutura se coproduzem no tempo-espaço (GIDDENS, 2009). Ortner adota esse fundamento, mas desloca o foco para uma abordagem etnográfica da agência, enfatizando que os sujeitos atuam orientados por projetos culturalmente significativos e inseridos em relações concretas de desigualdade (ORTNER, 2006).

Assim, enquanto Giddens desenvolve uma ontologia geral da ação, Ortner politiza o conceito ao tratar a agência não apenas como competência prática, mas como engajamento em projetos marcados por disputas de poder, dominação, resistência e modos sutis de não conformidade. Desse modo, a antropóloga amplia o escopo giddensiano ao incorporar dimensões intencionais, morais e afetivas da ação, evidenciando que a agência se manifesta tanto em estratégias transformadoras quanto em práticas cotidianas de sobrevivência e contestação, especialmente entre sujeitos subalternizados.

A discussão sobre agência em Anthony Giddens e Sherry Ortner é ampliada a partir da reflexão proposta por Jean e John Comaroff acerca da relação entre etnografia e imaginação histórica. Se, em Giddens, a agência constitui a capacidade dos atores de intervir nos fluxos do mundo social por meio de práticas situadas na dualidade da estrutura (GIDDENS, 2009), e se, em Ortner, essa agência é refinada como engajamento em projetos culturalmente significativos, atravessados por relações de poder, desigualdades e formas múltiplas de resistência (ORTNER, 2006), os antropólogos John e Jean Comaroff acrescentam que tais práticas só podem ser plenamente compreendidas quando inscritas em uma temporalidade histórica densa, onde passado, presente e futuro se imbricam na constituição do sujeito e de suas possibilidades de ação.

Para os autores, a etnografia não pode separar agência de história, pois os atores cotidianos mobilizam repertórios simbólicos, memórias coletivas e expectativas de futuro que configuram o campo mesmo da ação (COMAROFF & COMAROFF, 2010). Assim, a articulação entre as reflexões destes autores revela que a agência deve ser entendida não apenas como competência prática (Giddens) ou como realização de projetos situados dentro de relações de poder (Ortner), mas também como processo histórico-constitutivo, em que sujeitos socialmente localizados elaboram, imaginam e performam suas vidas a partir de trajetórias históricas e regimes de sentido que os precedem e os ultrapassam.

Nesse sentido, a imaginação histórica proposta pelos Comaroff reforça que a agência é sempre uma prática temporalizada, constituída pela fricção entre estruturas, projetos e histórias vividas. Ainda, de acordo com os Comaroff (2010), “muitos antropólogos têm desconfiado de ontologias que conferem primazia aos indivíduos em relação aos contextos. Isto porque estas se apoiam manifestamente em pressupostos ocidentais; entre eles, o de que os seres humanos podem triunfar sobre seus contextos com base apenas na força de vontade, o de que a economia, a cultura e a sociedade são o produto agregado da ação e da intenção individuais” (COMAROFF & COMAROFF, 2010, pág. 12). Ainda sobre o tema, os autores afirmam:

Pois, a despeito de quão abertos sejam, os sistemas de significado têm suas determinações próprias. Eles não apenas se dobram à vontade de quem deseja conhecê-los e agir sobre eles; pelo contrário, têm um papel significativo na formação da subjetividade. Em outras palavras, a “motivação” da prática social sempre existe em dois níveis distintos, ainda que relacionados: em primeiro lugar, as necessidades e desejos (culturalmente configurados) dos seres humanos; em segundo lugar, a pulsação das forças coletivas que, adquirindo poder por caminhos complexos, operam através dos primeiros. Essa distinção informa a análise de todos os processos históricos, mas seu significado foi ressaltado pela virada humanista nas ciências sociais, que suscitou apelos em prol de uma maior preocupação com a agência. Essa ênfase adquire especial visibilidade quando examinamos movimentos de época como o colonialismo europeu, no qual a ação “heroica”, resoluta, foi tema central e até mesmo força propulsora. De nosso ponto de vista, contudo, esse impulso não é suficiente para dar conta da determinação dos processos relacionados – ou mesmo para contar muito da história. Disso é testemunho, uma vez mais, a missão imperial, iniciativa motivada por forças contraditórias cujas consequências diferiram radicalmente dos motivos declarados pelos que nela se envolveram (COMAROFF & COMAROFF, 2010, pág. 44).

A partir desta discussão, destaco que o afã da celebração excessiva e por vezes acrítica em torno das possibilidades advindas do reconhecimento e da representação das identidades subalternizadas – principalmente pelo mercado cultural – não significa exatamente que questões irresolutas estão próximas de serem colocadas em xeque, ou menos ainda que caminhem para um desfecho minimamente digno. Ao longo deste trabalho, os depoimentos de meus interlocutores, tal qual outros exemplos citados, evidenciam essa complexidade etnográfica e analítica em questões que remontam ao nosso passado colonial e permanecem uma constante no cotidiano, aportadas de roupagens atuais. O acesso às políticas públicas e privadas no contexto da produção cultural das periferias, cujo aspecto transformador é enorme, tem se limitado, muitas vezes, a ser mais um produto exótico no mercado – com prazo de validade – quando não, um afago na cabeça, enquanto a justiça de fato não vem. Nessa linha, Tennina (2017) afirma:

As gestões do capital periférico por parte dos organismos estatais e governamentais, como podemos deduzir pelo que foi dito até aqui, embora tenham possibilitado ganhos indiscutíveis para os próprios artistas periféricos, terminaram funcionando também como programas preventivos que parecem substituir uma política de integração em longo prazo. Mais que de integração, portanto trata-se de políticas de inserção, o que se traduz, conforme explica João Camillo Penna (2009, p. 173), em uma medida que “teria um caráter transitório […], um corretivo de emergência localizado, como substituto de políticas mais gerais, mas, por definição, mais caras, e que por agora até nova ordem o Estado se encontra incapacitado de oferecer”. A cultura nesse sentido, assume um papel excessivo nas políticas públicas, já que assume condição de funcionar como solução social em grande escala (TENINNA, 2017, pág. 172)

Tommasi (2013, 2014a, 2014b, 2016a, 2016b, 2018), Tommasi e Velazco (2013, 2016), Tommasi e Corrochano (2020), bem como Tommasi e Silva (2020) apontam como, a partir da cultura de periferia, toda uma infraestrutura subjetiva e material, que articula termos como representatividade, empoderamento, protagonismo e autonomia – ambos veiculados como subjacentes ao existir periférico –, em conjunto com a capacitação de indivíduos, a captação de recursos e o aproveitamento de oportunidades oferecidas pelo mercado e instituições privadas, mediadas pelo poder público, é mobilizada com o discurso de “combate à pobreza”. Além da primazia de programas e financiamentos privados, em sua grande maioria estrangeiros, autores como Tommasi apontam para a origem dos termos como “empoderamento”, que são típicos da linguagem empresarial, mas que foram naturalizadas na retórica das populações subalternizadas – como a periférica – e até mesmo no linguajar progressista. As análises de Tommasi vão de encontro com o artigo de Arantes (2004), que faz uma análise crítica das ações do terceiro setor, discorrendo sobre sua penetração no Estado e na arena pública, em suas sutilezas semânticas e subjetivas, como se depreende abaixo:

Daí também a permanente disputa acerca do sentido das palavras, em torno do qual se concentra boa parte da luta política. Não é para menos: de uma hora para a outra “direito” tornou-se privilégio, além do mais em detrimento dos “excluídos”; sujeito de direitos, usuário de serviços; destruição social virou sinônimo progressista de “reforma”; previdência social, um mal-entendido num país de imprevidentes crônicos; sindicalismo, crispação corporativista; “cidadania”, mera participação numa comunidade qualquer; “solidariedade”, filantropia, é claro; bem público, interesses agregados de grupos sociais; desempregado, indivíduo de baixa empregabilidade; “parceria”, sempre que a iniciativa privada então com a iniciativa e o poder público com os fundos, etc. De fato, um “espantoso deslizamento semântico” (…). Por agora reparemos – com perdão da insistência – que esse mundo realmente de ponta-cabeça não obstante é palco de batalhas de interpretação justamente porque os contendores estão empregando as mesmas palavras (…) Quem não ouviu essa voz diária da razão: vocês não estão entendendo nada quando falamos de “direitos”, “reformas”, etc., fomos mal compreendidos, o que é natural, dada a complexidade da nova ordem mundial, por isso vamos, didaticamente, explicar tudo de novo, até que vocês compreendam o que de qualquer forma lhes irá suceder, queiram ou não. Nessas condições, como orientar o pensamento e a vontade política na direção de uma “articulação democrática entre poder e direito”, se no outro campo também se utiliza a argamassa dos “direitos da cidadania” para cimentar a aliança entre poder e dinheiro? (ARANTES, 2004, pág. 178/179).

Na análise dos dois autores, a readequação tanto semântica como subjetiva que inferem enormemente na materialidade – e que também fazem parte do lastro da agência, como vimos anteriormente – só pode acontecer a partir do Estado. É este que se encarrega da “organização e da articulação das massas” para as ações cidadãs das empresas e demais agentes filantrópicos preocupados com “o social”; que vai organizar os fundos públicos para as iniciativas privadas em nome da cidadania e da gestão do social. 

O Estado ora imputa à produção cultural das periferias papéis que este deveria cumprir (TENNINA, 2017), ora capacita os jovens produtores culturais das periferias, também para gerir a pobreza (DE TOMMASI & VELAZCO, 2016) e lança-os à precarização (DE TOMMASI, 2016a; 2016b). Ou ainda, envolve esses produtores culturais num campo escorregadio da semântica neoliberal, ao importar e inserir no cotidiano conceitos empresariais aplicados à arena pública e ao self (ARANTES, 2004), (DE TOMMASI & VELAZCO 2013, 2016). Loïc Wacquant discorre sobre aquilo que diferencia o neoliberalismo do liberalismo e como a “antropologia do neoliberalismo se polarizou entre um modelo econômico hegemônico, ancorado por variantes do domínio de mercado, e uma abordagem rebelde, alimentada por derivações da noção foucaultiana de governamentalidade” (WACQUANT, 2012, p. 505). Segundo o autor, “essas duas concepções convergem para obscurecer o que é ‘neo’ no neoliberalismo, a saber, a reengenharia e a reestruturação do Estado como principal agência que conforma ativamente as subjetividades, as relações sociais e as representações coletivas apropriadas a tornar a ficção dos mercados real e relevante” (WACQUANT, 2012, p. 507). 

É possível entender então que o Estado não foi corroído pelo neoliberalismo, mas sim que o Estado é parte ativa do projeto neoliberal. A partir de um diálogo com a obra de Bourdieu (1994), Wacquant reitera que a formação do Estado contemporâneo é perpassada por duas batalhas internas, correspondentes às tensões e disputas existentes no corpo social: uma é a batalha vertical, entre opressores e oprimidos, que antagoniza o alto escalação do Estado – composto de entusiastas das políticas neoliberais e da mercatização da vida – ao baixo escalão estatal, o executivo – estes, que advogam a preservação da burocracia pública; a outra é a batalha horizontal, que envolve a disputa entre duas variantes de capital, que competem pela hegemonia interna, a saber, a econômica e a cultural. A primeira, representando a mão direita do Estado, se responsabiliza pelas restrições fiscais e a imposição do mercado; a segunda, defende as minorias despossuídas de capital econômico e cultural, simbolizando a ala social, a mão esquerda do Estado.

O autor então afirma que “[u]sando esse esquema, pode-se fazer um diagrama do neoliberalismo como o vaivém sistemático das prioridades e ações estatais da mão esquerda para a mão direita, isto é, do polo protetor (feminino e coletivizante) para o polo disciplinador (masculino e individualizante) do campo burocrático” (WACQUANT, 2012, pág. 512). E é desse vaivém sistemático que deriva a predisposição direitizante do Estado, segundo Wacquant (2012). Para o autor, isso acontece sistematicamente de duas maneiras complementares que, no meu entender, revela o caráter político e ideológico do Estado:

(i) a transferência de recursos, programas e populações da ala social para a ala penal do Estado (como ocorre quando pacientes doentes são “desinstitucionalizados” com o fechamento de hospitais e “reinstitucionalizados” em cadeias e prisões depois de transitarem como sem-teto); (ii) a colonização da assistência social, da saúde, da educação, da habitação de baixa renda, dos serviços de assistência à infância, etc. por técnicas panópticas e disciplinares e pelos tropos da mão direita (como ocorre quando os hospitais privilegiam as preocupações orçamentárias sobre as médicas em sua organização interna e quando as escolas colocam a redução da evasão juvenil e da violência em sala de aula à frente da pedagogia, contratando seguranças em vez de psicólogos). Essa dupla inclinação direitizante da estrutura e das políticas do Estado não é, enfaticamente, produto de algum imperativo sistêmico misterioso ou de necessidade funcional irresistível; trata-se do resultado (estruturalmente condicionado, mas historicamente contingente) de lutas materiais e simbólicas, travadas dentro e fora do campo burocrático, sobre as responsabilidades e modalidades de operação da autoridade pública (WACQUANT, 2012, p. 512).

A formulação de Frantz Fanon segundo a qual “o colonizado quer ser colonizador” (FANON, 2022) oferece uma chave para compreender como práticas culturais periféricas, hoje inseridas em circuitos de fomento público e privado, podem ser capturadas por racionalidades neoliberais que reatualizam, sob novas formas, a verticalidade colonial. Nos editais voltados às periferias de São Paulo — especialmente aqueles estruturados por critérios de inovação, empreendedorismo cultural, impacto mensurável e autogestão — produz-se um sujeito periférico ideal que deve converter suas experiências de desigualdade em projetos competitivos e alinhados a métricas de eficiência.

Tal figura corresponde ao que Loïc Wacquant denomina como “neoliberalismo realmente existente”, caracterizado pela retração do Estado social, expansão das tecnologias penais e moralização da pobreza via responsabilização individual. Ao deslocarem para artistas e coletivos periféricos a tarefa de gerir sua própria precariedade, esses editais promovem um regime de subjetivação que estimula a internalização dos valores do neoliberalismo, convertendo vulnerabilidade em recurso e precariedade em capital. Nesse sentido, o movimento descrito por Fanon reaparece na forma contemporânea do artista periférico empreendedor, capaz de mimetizar códigos institucionais. 

Considerações finais

A análise das políticas culturais voltadas às periferias urbanas de São Paulo evidencia como os editais estruturados pela gramática do empreendedorismo, da inovação e da mensuração de impacto produzem sujeitos moldados por racionalidades neoliberais que reatualizam desigualdades históricas. A partir da chave proposta por Fanon — segundo a qual o colonizado tende a se imaginar no lugar do colonizador — torna-se possível compreender como artistas e coletivos periféricos são interpelados a converter suas experiências de precariedade em projetos competitivos e responsivos a métricas de eficiência, internalizando padrões institucionais que reiteram a verticalidade colonial sob uma forma contemporânea.

Ao integrar a discussão antropológica sobre agência, especialmente em Sherry Ortner e Anthony Giddens, podemos perceber que essa interpelação não se restringe a um processo de submissão, mas opera pela constituição de campos de ação estruturados por expectativas, incentivos e tecnologias de gestão. Em Ortner, a agência aparece simultaneamente como ação situada e como orientação projetiva, sempre inscrita em regimes de poder que moldam a imaginação e o horizonte de possibilidades. Já a noção giddensiana de agência, articulada à dualidade da estrutura, mostra como os indivíduos produzem e reproduzem as condições sociais que os limitam, revelando que a “autonomia” dos agentes periféricos é, em grande parte, configurada pelos próprios dispositivos que afirmam emancipá-los. Assim, a figura do artista periférico empreendedor emerge como resultado de um processo de condução da conduta, no qual a liberdade é continuamente moldada pela governamentalidade neoliberal.

Dessa forma, embora os editais culturais ampliem o acesso a recursos antes inacessíveis, eles operam também como dispositivos de governamentalidade que traduzem desigualdades históricas em competências individualizadas e meritocráticas. A agência, longe de representar liberdade plena, manifesta-se como espaço de negociação: um campo tensionado entre reprodução, adaptação e invenção, no qual artistas periféricos tanto mimetizam códigos institucionais quanto produzem fissuras e alternativas. Assim, compreender os editais como arenas de disputa — e não como meros instrumentos técnicos de fomento — permite reconhecer as ambivalências e as possibilidades que emergem da ação periférica, destacando como o imaginário colonial persiste, mas também como pode ser desafiado.

A discussão aqui desenvolvida sugere, portanto, que políticas culturais mais democráticas exigem não apenas ampliar o acesso aos recursos, mas redesenhar as estruturas de avaliação, participação e decisão de forma a não reproduzir a lógica neoliberal de responsabilização individual. Somente assim será possível promover formas de criação que não apenas sobrevivam, mas desestabilizem o regime de valor que converte precariedade em capital e desigualdade em mérito — e que, por fim, permitam imaginar futuros que escapem à reincorporação permanente do colonialismo sob novas roupagens. 

Discorri sobre o meio em que a produção cultural das periferias se encontra, refletindo sobre seus paradoxos, contextos, dinâmicas, modos e possibilidades de ação. A fim de trazer uma perspectiva mais ampla, lancei mão de eventos e depoimentos que colhi em campo, como também de situações que acompanhei – ainda que virtualmente algumas vezes – relacionadas ao fazer cultural, político e ideológico nas periferias de São Paulo. Entre essencializações positivadas, celebradas em diversos trabalhos acadêmicos e em diversas parcerias públicas e privadas, mercadológicas de antemão, que evidenciam o progresso, o poder de agência e transformação das periferias, como se a justiça social estivesse a serviço de um projeto, de uma apresentação, de um financiamento de distância; e essencializações negativas, que mais uma vez, punem os pobres, os marginais e toda sorte de condenados da terra, como os únicos e principais responsáveis pela sua miséria, optei por uma análise mais realista e menos dissimulada disso que, em tom de brincadeira, chamei de “giro neoliberal” nas periferias. Ainda que esta análise possa encontrar um tom pessimista em algumas leituras, afirmo que se trata de um caso de “pessimismo da inteligência, otimismo da vontade” (GRAMSCI, 1920, sem paginação). Longe de apresentar uma análise definitiva para compreender todas as nuances do tema, espero ter contribuído para o debate. 

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Notas

  1. Este artigo é uma tradução para o espanhol do trabalho publicado originalmente em inglês: SANTOS, Silvio Rogerio dos. On cultural paradoxes: culture, agency, identity, representation, and the survival of peripheral subjects in the “Era of the Periphery”. Vibrant: Virtual Brazilian Anthropology, v. 21, e21901, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/vb/a/PBXx4kQGRpXqKwFwf3hsvDG/?lang=en. ↩︎
  2. Aqui, a referência à “Era da Perifa” remete análise feita por Reyes (2012), que via com preocupação o afã acadêmico e do mercado cultural em celebrar as identidades, representatividades e potências das periferias em toda a américa latina e a cooptação destas pelo status quo, enquanto velhos e persistentes problemas ainda seguem como ordem do dia. Para maiores informações, ver Reyes (2012). ↩︎
  3.  “Nóis por nóis” é uma expressão que se popularizou nas periferias de São Paulo, ao final da década de 1990. Parte do vocabulário do Rap/Hip Hop nacional, se tornou frase de efeito dentro da cena cultural das periferias de São Paulo, encontrada em poemas, poesias, crônicas e romances, bem como em músicas dessa cena, assim como em demais produções da mesma. De modo geral, significa que só a união entre nós (o povo das periferias) pode transformar nossa realidade, já que ninguém mais é ou foi capaz de fazê-lo, fazendo uma alusão direta ao abandono do Estado e demais instâncias de poder, além da auto-organização. Já a frase “Nóis é ponte que atravessa qualquer rio”, do poeta Marco Pezão, expressa unidade e força coletiva de uma comunidade — sobretudo a periférica — quando se une para enfrentar desafios. A imagem da ponte destaca o poder do coletivo (“nóis”) como aquilo que permite atravessar e vencer os “rios”, isto é, os obstáculos sociais, econômicos e culturais. ↩︎
  4. “O Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais – VAI, foi criado pela lei 13.540 e regulamentado pelo decreto 43.823/2003, com a finalidade de apoiar financeiramente, por meio de subsídio, atividades artístico-culturais, principalmente de jovens de baixa renda e de regiões do Município desprovidas de recursos e equipamentos culturais.” Maiores informações em: https://programavai.blogspot.com/p/sobre-o-vai.html. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  5. “Dória transfere Virada Cultural para Interlagos e diz que SP é um ‘lixo vivo’”. Portal G1 (05/12/2016): https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/doria-transfere-virada-cultural-para-interlagos-e-diz-que-sp-e-um-lixo-vivo.ghtml. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  6. “‘Vou quebrar a sua cara’, diz secretário da cultura de Dória a ativista”. Estadão (30/05/2017): https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,vou-quebrar-a-sua-cara-diz-secretario-da-cultura-de-doria-a-ativista,70001818838. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  7. Christian Lohbauer é cientista político e professor da USP, ex-vice-candidato à presidência pelo Partido Novo (2018), do qual foi um dos fundadores até sua desfiliação em 2021. Durante o governo de Bolsonaro, ele foi defensor da política ambiental do governo. Atualmente, o cientista político é presidente da CropLife Brasil, que representa as empresas de agrotóxicos e transgênicos no Brasil. Maiores informações em: https://istoe.com.br/queremos-mostrar-para-greta-que-nao-somos-do-mal/. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  8. “Por que todos os vídeos em apoio ao Sturm são iguais?”. Agenda Preta (07/06/2017). Maiores informações em: https://www.facebook.com/share/188fqyh73J//. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  9. A matéria citada encontra-se atualmente indisponível em seu endereço original. Foram realizadas tentativas de recuperação via ferramentas de arquivamento digital (Wayback Machine), sem sucesso. Contudo, o registro da publicação permanece parcialmente verificável através de postagens remanescentes em redes sociais (Facebook), onde ainda é possível visualizar a chamada e o título da matéria, embora o link externo para o conteúdo integral tenha sido desativado. ↩︎
  10. “Grafiteiro é preso em SP após apagar tinta cinza sobre sua obra”. Estadão (27/01/2017): https://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,grafiteiro-e-detido-em-sp-apos-apagar-tinta-sobre-sua-obra,70001644099. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  11. O Coletivo Imargem foi fundado em 2006, por Mauro Neri e outros grafiteiros da região do Grajaú, extremo sul de São Paulo. Atualmente o coletivo é liderado pelo irmão Mauro, Wellington Neri, mais conhecido como Tim. O coletivo tem, por principal atividade, a realização de obras ligadas às artes plásticas como o grafitti e a promoção de discussões e oficinas sobre ecologia e ocupação dos espaços públicos a partir do território. Para maiores informações, ver Santos (2024). ↩︎
  12. De acordo com a matéria na página do Itaú Cultural, “[e]ssa frase, [Ver a cidade] que pode ser lida em muitos muros na cidade de São Paulo, sempre acompanhada de uma casa amarela com telhado marrom, é o convite que o artista visual Mauro Neri nos faz para não deixarmos de perceber a beleza, a crueldade, a resistência e as possibilidades da nossa cidade”. Maiores informações em: https://www.itaucultural.org.br/ver-a-cidade-e-suas-nuances-entrevista-com-mauro-neri. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  13. “Após cruzada contra pichadores, Prefeitura de São Paulo lança programa Museu de Arte de Rua”. O Globo (10/03/2017): https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/apos-cruzada-contra-pichadores-prefeitura-de-sao-paulo-lanca-programa-museu-de-arte-de-rua-21043505. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  14. “Grajaú: um novo centro efervescente de artistas”. Veja (22/06/2018): https://vejasp.abril.com.br/cidades/grajau-artistas-nova-geracao/. Acesso em: 22/11/2025. ↩︎
  15. Embora a noção de sistema por vezes possa soar abstrata, aqui ela pode ser entendida como a marginalização, a negligência social, o não acesso a políticas públicas, a violência policial, o extermínio da população negra e periférica e as demais mazelas que ainda permeiam a sociabilidade nas periferias de São Paulo, como se pode perceber nos discursos de vários desses agentes culturais, tais como descritos tanto em Nascimento (2009), quanto no trabalho de Medeiros et al (2016). ↩︎
  16. “Cidadania cultural” é um termo criado pela filósofa Marilena Chauí, em 2000, e disseminado com o trabalho social das ONGs e de setores progressistas da gestão pública a partir de então, tal como discutido no seu livro “Cidadania Cultural: O Direito à Cultura” (2006). ↩︎
  17. “A periferia liberal e os riscos da disputa narrativa “dos pobres””. Carta Capital (20/04/2017): https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-periferia-liberal-e-os-riscos-da-disputa-narrativa-201cdos-pobres201d/. Acesso em: 02/02/2024. ↩︎
  18. “As esquerdas perderam votos na periferia quando deixaram de ser esquerdas”, diz pesquisador. Pública (17/04/2017): https://apublica.org/2017/04/as-esquerdas-perderam-votos-na-periferia-quando-deixaram-de-ser-esquerdas-diz-pesquisador/. Acesso em: 02/02/2024. ↩︎
  19. “Um sobrevivente do inferno”. Le Monde Diplomatique Brasil (08/01/2028): https://diplomatique.org.br/um-sobrevivente-do-inferno/. Acesso em: 02/02/2024. ↩︎
  20. A Cooperifa é um Coletivo Cultural idealizado por Sérgio Vaz, fundado em 2001 na Zona Sul de São Paulo. Após várias mudanças, o sarau hoje se localiza no “Bar do Zé Batidão”, no Taboão da Serra (NASCIMENTO, 2011). No início de 2025 o coletivo anunciou em seu Instagram, uma pausa em suas atividades por tempo indeterminado. ↩︎
  21. Nos depoimentos cedidos a mim, que integram esta parte do artigo, os depoentes concordaram em usar seus nomes reais. ↩︎
  22. Fruto das lutas populares na Ilha do Bororé, a Ecoativa foi criada oficialmente no ano de 1999. Nessa época, muito articulada com os movimentos sociais/culturais locais, promove tanto ações culturais quanto ecológicas e sociais no entorno. Após um hiato de 2006 à 2013, retoma suas atividades sob outra organização, atuando na arte educação, turismo de base comunitária e ecologia. Para maiores informações, ver Santos (2024). ↩︎
  23. O Sarau da Brasa, como é popularmente conhecido, iniciou suas atividades em 2008, na Vila Brasilândia, zona norte de São Paulo. O coletivo surgiu como uma resposta aos anseios de um grupo de jovens, amigos de infância, já envolvidos, de diversas maneiras, com a cultura na região e que, ao acessarem a universidade, tiveram a ideia de retornarem ao bairro de origem e construírem um coletivo cultural. Assim, influenciados pelo exemplo dado por grupos como Cooperifa e o Sarau do Binho, e por escritores como Sérgio Vaz e Ferréz, surgiu o coletivo cultural Poesia na Brasa. Para maiores informações, ver Santos (2019; 2024). ↩︎
  24. Muito influenciado pelo Rap/Hip Hop, o coletivo Perifatividade surge em 2010, no Fundão do Ipiranga, na zona sul de São Paulo. Atuando a partir da literatura, o coletivo desenvolve trabalhos na área da educação e direitos humanos, fazendo uso de equipamentos públicos locais como praças, escolas, telecentros e afins. Para maiores informações, ver Santos (2019; 2024). ↩︎

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Editorial Quem Somos

O que é o Dissenso Crítico? Um editorial…

Ele grita como quem protesta, mas circula como quem vende.
Quando a revolução cabe numa embalagem, ela já não ameaça ninguém.
Democracia morta. Créditos da arte: Cristiano Suarez (@cristianossuarez)
Quem puxa não precisa puxar forte — basta definir os limites do movimento possível.
Mudou a linguagem, não a estrutura.
O chicote virou contrato.
A missão civilizatória virou impacto social.
A catequese virou capacitação.
A queda não interrompe a vida — ela se torna o modo da vida. Qualquer saída que não enfrente a estrutura da queda será apenas mais um andar dizendo “até aqui, tudo bem”.

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Quem Somos

Por que Dissenso Crítico?

Somos pessoas velhas. Cringes? Anacrônicas? Talvez. Mas, com certeza, somos sujeitos do nosso tempo. E isso não significa que nos conformamos com ele, muito pelo contrário. Há um aspecto em nossa atualidade, derivado da era da informação, principalmente no pós-pandemia, que muito nos incomoda: a torção dos sentidos. É a percepção de que, cada vez mais, a criticidade e a própria ação crítica perdem sentido ou têm seu sentido transformado, adaptado ou cooptado por interesses antagônicos ao seu contexto de origem. Como, por exemplo, o uso da palavra revolução.

Cotidianamente ouvimos falar de inúmeras revoluções. Seja a “revolução digital”, “revolução do streaming”, “revolução do Pix”. Mas, sejamos honestos, isso não é revolução coisa nenhuma, é só inovação tecnológica a serviço do mercado. O uso constante e exagerado dessa palavra acaba apagando o seu sentido original e radical. Uma revolução de verdade, no sentido político e social, implica uma transformação completa das estruturas de poder e, principalmente, a abolição das classes sociais. Quando usamos “revolução” para descrever um aplicativo novo que nos deixa pedir comida mais rápido, esvaziamos o termo e ignoramos a luta real que ainda é necessária para mudar o sistema.

A inflação semântica do termo “revolução” no mundo contemporâneo é um ponto crucial de análise. Expressões como “revolução digital” ou “Quarta Revolução Industrial” descrevem, no máximo, acelerações tecnológicas ou inovações mercadológicas, mas raramente uma revolução no sentido dialético e materialista do termo. Esse uso constante e esvaziado tem um efeito ideológico claro: o apagamento do sentido mais profundo e radical da palavra. Uma revolução social de verdade exige a superação das contradições de classe, a tomada dos meios de produção pela coletividade e a abolição da propriedade privada. Reduzir esse conceito a um novo gadget ou modelo de negócios é despolitizar a história e silenciar a possibilidade de uma transformação estrutural real.

O problema central é que a narrativa da “revolução digital” nos vende a ideia de que a mudança é inevitável, neutra e até benéfica para todos, desde que aceitemos as regras do jogo capitalista. Isso mascara as novas formas de exploração que surgem, como a precarização do trabalho via aplicativos e a concentração massiva de capital nas mãos de poucos gigantes da tecnologia. Ao enquadrar essas transformações como “revolucionárias”, a ideologia dominante tenta nos convencer de que não precisamos de uma revolução política ou de uma luta de classes: a tecnologia supostamente resolverá tudo. Tal qual o empreendedorismo. Tal qual a representatividade. Tal qual o neoliberalismo e assim por diante. Assim, a verdadeira força subversiva do termo é neutralizada, transformando a “revolução” em sinônimo de “progresso de mercado” e não de emancipação humana.

Essa dicotomia revela uma hipocrisia social interessante: as pessoas adoram as “revoluções” que lhes dão mais conforto e entretenimento instantâneo, mas temem a revolução social de fato, mesmo que ela aponte para uma sociedade radicalmente mais justa. A primeira é confortável, exige apenas que saibamos usar um novo app; a segunda é aterradora, pois exige a renúncia de privilégios e a quebra da ordem estabelecida. Esse medo da transformação radical é ativamente cultivado. Não é do interesse de quem controla a sociedade que as pessoas tenham coragem de se rebelar. Por isso, são usadas todas as ferramentas possíveis para o controle social, que vão desde a indústria cultural (entretenimento que anestesia o pensamento crítico) e a mídia corporativa (que demoniza qualquer alternativa ao status quo) até a vigilância digital e o aparato repressivo do Estado, garantindo que o status quo se mantenha intacto e o sistema de classes nunca seja questionado de verdade.

Uma revolução saturada de símbolos, plenamente visível, tecnicamente mediada e estruturalmente bloqueada — onde o acesso existe, mas a ruptura não. Créditos: Imagem gerada artificialmente.

Dito isto, o nome Dissenso Crítico vem deste entendimento, de que a organização social na era da informação se baseia, na verdade, na desinformação. Na distorção e apagamento de conceitos, ideias, realidades e, consequentemente, da ação e da materialidade. A única ideia que segue intacta cada vez mais é o neoliberalismo: o capitalismo em suas novas roupagens. Este que, mesmo em seu estado mais crítico e prestes a colapsar, devastando não apenas a classe trabalhadora, mas todas as pessoas, a fauna, a flora, todo um planeta e que ruma para a conquista espacial, é legitimado direta ou indiretamente por todos nós, nos mais ínfimos detalhes. Muitas vezes, até mesmo sem saber ou sem querer. A inteligência artificial está aí, também para isso.

Entendemos que, por mais que a crítica não amedronte o capitalismo — já que este engole e ressignifica tudo o que encontra pela frente —, atualmente ela tem sido usada para, quando não legitimar, acomodar os indivíduos e sua pulsão de revolta dentro deste mesmo sistema. Seja através de seus canais tecnológicos, seja através de influenciadores radicais de plataforma que, mesmo produzindo “conteúdos de esquerda”, legitimam a centralidade destes meios e ficam reféns dos mesmos, chegando ao ponto de fazer campanhas enormes para recuperarem seus perfis nas ditas plataformas. Lembrando que, numa última instância, o que faz uma plataforma? Ela plataformiza. Plataformiza e controla.

O ativista digital não é reprimido pelo sistema; ele é o formato humano através do qual o sistema administra a dissidência. Créditos: Imagem gerada artificialmente.

Do ponto de vista materialista, a sociedade é controlada por uma rede interligada de elites econômicas e políticas que possuem interesses comuns na manutenção do sistema capitalista global. Estes são os detentores dos meios de produção — grandes empresas, bancos e corporações de tecnologia — que exercem controle através do domínio econômico, da influência política e do controle ideológico (mídia, indústria cultural) para garantir que o poder permaneça concentrado no topo da pirâmide socioeconômica.

Já a perspectiva do anarquismo social expande essa análise ao argumentar que o controle é exercido por qualquer forma de hierarquia coercitiva e autoridade centralizada, e não apenas por uma classe econômica. Para os anarquistas, o Estado é a principal ferramenta de dominação, detendo o monopólio da violência e centralizando o poder de decisão. O capitalismo é igualmente rejeitado por ser intrinsecamente hierárquico e explorador. O controle, nessa visão, é sistêmico e multifacetado, e o anarquismo rejeita todas as estruturas verticais (governo, corporações, igreja) que oprimem a liberdade individual e coletiva, e é em favor da autogestão e da livre organização.

Assim, conclui-se que o controle da sociedade não é exercido por um único “controlador”, mas sim por um sistema complexo e interligado de autoridade e hierarquia, que combina o poderio econômico e de classe com as estruturas coercitivas do Estado e outras instituições dominantes, visando a manutenção do status quo e a perpetuação da desigualdade.

Por entendermos que esse controle social se dá para além de sua materialidade, na formação subjetiva dos sujeitos, oferecendo saídas individuais e ilusórias como likes, curtidas, informações falsas, ênfase na performance virtual, na reprogramação mental e no empreendedorismo, optamos por apostar na ideia de um dissenso crítico e não apenas de um dissenso como performance. Partimos de uma cisma, uma descrença com a cultura, a política, a representatividade, o empoderamento e com a vida celebrada nas plataformas digitais.

Os Editores.